15 Novembro 2020
Ano A
33º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 33º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum
recorda a cada cristão a grave responsabilidade de ser, no tempo histórico em
que vivemos, testemunha consciente, activa e comprometida desse projecto de
salvação/libertação que Deus Pai tem para os homens.
O Evangelho apresenta-nos dois exemplos opostos de como esperar e preparar a
última vinda de Jesus. Louva o discípulo que se empenha em fazer frutificar os
"bens" que Deus lhe confia; e condena o discípulo que se instala no
medo e na apatia e não põe a render os "bens" que Deus lhe entrega
(dessa forma, ele está a desperdiçar os dons de Deus e a privar os irmãos, a
Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito).
Na segunda leitura, Paulo deixa claro que o importante não é saber quando virá
o Senhor pela segunda vez; mas é estar atento e vigilante, vivendo de acordo
com os ensinamentos de Jesus, testemunhando os seus projectos, empenhando-se
activamente na construção do Reino.
A primeira leitura apresenta, na figura da mulher virtuosa, alguns dos valores
que asseguram a felicidade, o êxito, a realização. O "sábio" autor do
texto propõe, sobretudo, os valores do trabalho, do compromisso, da
generosidade, do "temor de Deus". Não são só valores da mulher
virtuosa: são valores de que deve revestir-se o discípulo que quer viver na
fidelidade aos projectos de Deus e corresponder à missão que Deus lhe confiou.
LEITURA I - Prov 31,10-13.19-20.30-31
Leitura do Livro dos Provérbios
Quem poderá encontrar uma mulher
virtuosa?
O seu valor é maior que o das pérolas.
Nela confia o coração do marido,
e jamais lhe falta coisa alguma.
Ela dá-lhe bem-estar e não desventura,
em todos os dias da sua vida.
Procura obter lã e linho
e põe mãos ao trabalho alegremente.
Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso.
Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente.
A graça é enganadora e vã a beleza;
a mulher que teme o Senhor é que será louvada.
Dai-lhe o fruto das suas mãos,
e suas obras a louvem às portas da cidade.
AMBIENTE
O "Livro dos Provérbios"
apresenta várias colecções de ditos, de sentenças, de máximas, de provérbios
("mashal") onde se cristaliza o resultado da reflexão e da
experiência ("sabedoria") de várias gerações de "sábios"
antigos (israelitas e alguns não israelitas). O objectivo desses provérbios é
definir uma espécie de "ordem" do mundo e da sociedade que, uma vez
apreendida e aceite pelo indivíduo, o levará a uma integração plena no meio em
que está inserido. Dessa forma, o indivíduo poderá viver sem traumas nem
sobressaltos que destruam a sua harmonia interior e o incapacitem para dar o
seu contributo à comunidade. Ficará, assim, de posse da chave para viver em
harmonia consigo mesmo e com os outros, e assegurará uma vida feliz, tranquila
e próspera.
O livro apresenta-se como tendo sido composto por Salomão (cf. Prov 1,1), o rei
"sábio", conhecido pelos seus dotes de governação, pelos seus dons
literários, por numerosas sentenças sábias (cf. 1 Re 3,16-28; 5,7; 10,1-9.23) e
que se tornou uma espécie de "padrão" da tradição sapiencial... Na
realidade, não podemos aceitar, de forma acrítica, essa indicação: a leitura atenta
do livro revela que estamos diante de colecções de proveniência diversa,
compostas em épocas diversas. Alguns dos materiais apresentados no livro podem
ser do séc. X a.C. (época de Salomão; no entanto, isso não implica que venham
do próprio Salomão); outros, no entanto, são bem mais recentes.
O texto que nos é hoje proposto aparece no final do Livro dos Provérbios.
Apresenta-se literariamente como um "poema alfabético" (poema em que
a primeira letra de cada verso segue a ordem das letras do alfabeto: a primeira
palavra do primeiro verso começa com a letra "alef", a primeira
palavra do segundo verso começa com a letra "bet" e assim
sucessivamente). Tema do poema: a mulher virtuosa.
Provavelmente, o Livro dos Provérbios foi usado como manual para a formação de
jovens que frequentavam as escolas de "sabedoria". Este poema,
situado no final do livro, poderia ser a "instrução final": antes de
abandonar a escola e depois de haver assimilado os ensinamentos dos
"sábios", o aluno era instruído acerca da eleição da esposa.
MENSAGEM
Quais são então, na perspectiva dos
"sábios" de Israel, as características da mulher virtuosa?
Antes de mais, é a mulher que gere bem a casa e não deixa que nada falte. Ao
constatar a boa ordem em que tudo caminha, por acção da esposa, o coração do
marido descansa e confia (vers. 11-12).
Depois, é a mulher diligente, que trabalha a lã e o linho para que os seus
familiares tenham agasalhos suficientes e que se encarrega de todos os
trabalhos domésticos (vers. 13 e 19).
É, ainda, a mulher de coração generoso, que tem piedade do infeliz e que
partilha generosamente o fruto do seu trabalho com o pobre que pede auxílio
(vers. 20).
É, finalmente, a mulher que não se preocupa com a sua aparência, mas se
preocupa em viver no temor do Senhor. Viver no "temor do Senhor"
significa respeitar os mandamentos, obedecer a Jahwéh, aceitar com humildade e
confiança a sua vontade, os seus planos e os seus projectos (vers. 30-31).
O retrato da mulher aqui esboçado está muito longe da noiva/esposa do Cântico
dos Cânticos, que oferece ao amado a sua presença, o seu corpo e o seu amor. O
ideal de mulher aqui apresentado é o da mãe de família que dirige com
eficiência, com dedicação e com empenho a sua casa rural e que é co-responsável
com o marido na administração da casa, dos bens e da propriedade.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões:
• Mais do que uma mulher virtuosa ideal,
o "sábio" autor do texto que nos é proposto exalta todos aqueles -
mulheres e homens - que conduzem a sua vida de acordo com os valores do
trabalho, do empenho, do compromisso, da generosidade, do "temor de
Deus". São estes valores, na opinião do autor, que nos asseguram uma vida
feliz, tranquila e próspera. Numa época em que a cultura do "deixa
andar", da desresponsabilização, do egoísmo se afirma cada vez mais, este
texto constitui uma poderosa interpelação... Na verdade, por que caminhos é que
chegamos à vida e à felicidade?
• O nosso texto sugere também uma
reflexão sobre as nossas prioridades... Da mulher virtuosa diz-se que não se
preocupa com os valores efémeros (a aparência), mas que se
preocupa com os valores eternos (o "temor de Deus"). Quais são as
prioridades da nossa vida? Quais são os valores em que apostamos a nossa
existência? Os nossos valores fundamentais são valores que nos trazem
felicidade duradoura?
• A referência à generosidade para com o
pobre e o necessitado é questionante... Como é que consideramos e tratamos
aqueles irmãos que nos batem à porta, a pedir um pedaço de pão, um pouco de
atenção, ou ajuda para deslindar um qualquer problema burocrático? Temos o
coração aberto aos irmãos e pronto para ajudar, ou fechamo-nos à caridade, à
partilha, ao dom?
• A referência ao "temor de
Deus" como valor primordial na vida da mulher ou do homem
"sábio" e virtuoso também merece a nossa consideração. No Antigo
Testamento, o "temor de Deus" é a qualidade do homem ou da mulher que
ama Deus, que procura conhecer os seus planos e projectos e que cumpre - com
obediência radical e com total confiança - a vontade de Deus. Esta dependência
de Deus - diz-nos um "sábio" de Israel - não diminui a nossa
liberdade, nem atenta contra a nossa realização; pelo contrário, é condição
essencial para a realização plena do homem.
SALMO RESPONSORIAL - Salmo 127
Refrão: Ditoso o que segue o caminho do
Senhor.
Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.
Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.
Assim será abençoado o homem que teme o
Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.
LEITURA II - 1 Tes 5,1-6
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo
São Paulo aos Tessalonicenses
Irmãos:
Sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva,
pois vós próprios sabeis perfeitamente
que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno.
E quando disserem: «Paz e segurança»,
é então que subitamente cairá sobre eles a ruína,
como as dores da mulher que está para ser mãe,
e não poderão escapar.
Mas vós, irmãos, não andeis nas trevas,
de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão,
porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia:
nós não somos da noite nem das trevas.
Por isso, não durmamos como os outros,
mas permaneçamos vigilantes e sóbrios.
AMBIENTE
Já vimos, no passado domingo, que um dos
problemas fundamentais para os tessalonicenses residia na compreensão dos
acontecimentos ligados à parusia (regresso de Jesus, no final dos tempos).
Paulo e as primeiras gerações cristãs acreditavam que o "dia do
Senhor" (o dia da intervenção definitiva de Deus na história, para
derrotar os maus e para conduzir os bons à vida plena e definitiva) surgiria
num espaço de tempo muito curto e que os membros da comunidade ainda
assistiriam ao triunfo final de Jesus. No entanto, os dias foram passando e,
provavelmente, faleceu algum membro da comunidade. Por isso, os tessalonicenses
perguntavam: qual será a sorte dos cristãos que morreram antes da segunda vinda
de Cristo? Como poderão eles sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com
Ele no Reino de Deus se já estão mortos?
A estas questões Paulo respondeu já no texto que nos foi proposto no passado
domingo... Mas, no texto de hoje, Paulo continua a sua reflexão sobre o
"dia em que o Senhor virá" e sobre a forma como os cristãos o devem
preparar.
MENSAGEM
A primeira questão que o nosso texto põe
é a da eventual data do "dia do Senhor". Paulo tem alguma indicação
concreta acerca disso? É possível prever uma data?
Não. Paulo está convicto de que esse acontecimento se dará proximamente; no
entanto, a data exacta continua desconhecida e imprevista.
Por isso, os crentes devem estar atentos para não serem surpreendidos. Para
descrever a "surpresa de Deus", Paulo utiliza duas imagens bem
significativas: Deus surpreende-nos como um ladrão que chega de noite, quando
ninguém está à espera (vers. 2); e Deus é como as dores de parto que surgem de
repente (vers. 3). Em consequência, a vida cristã deve estar marcada por uma atitude
de preparação e de vigilância.
Para além da questão da data, o que é importante é que os cristãos vivam de
forma coerente com a opção que fizeram no dia do seu Baptismo. Os crentes têm
de viver de maneira diferente dos não crentes, pois os horizontes de uns e de
outros são diferentes... Os não crentes vivem mergulhados na noite e nas
trevas, estão adormecidos, atordoam-se com a bebida; vivem no presente,
absolutamente despreocupados em relação ao futuro, de olhos postos no horizonte
terreno. Os crentes são filhos da luz e do dia, estão vigilantes, mantêm-se
sóbrios; vivem de olhos postos no futuro, à espera que chegue a vida
verdadeira, plena, definitiva que Deus lhes vai oferecer.
Na verdade, a vida dos crentes é mais bela e significativa, porque está cheia
de esperança. No entanto, é preciso dar corpo à esperança esperando, fiéis e
vigilantes a chegada do Senhor.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes
dados:
• A questão fundamental que os cristãos
devem pôr, a propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas
é a questão de como esperar e preparar esse momento. Paulo deixa claro que o
que é preciso é estar vigilante. "Estar vigilante" não significa
ficar a olhar para o céu à espera do Senhor, esquecendo e negligenciando as questões
do mundo e os problemas dos homens; mas significa viver, no dia a dia, de
acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando-se na transformação do mundo e
na construção do Reino.
• A certeza da segunda vinda do Senhor
dá aos crentes uma perspectiva diferente da vida, do seu sentido e da sua
finalidade... Para os não crentes, a vida encerra-se dentro dos limites
estreitos deste mundo e, por isso, só interessam os valores deste mundo; para
os crentes, a verdadeira vida, a vida em plenitude, está para além dos
horizontes da história e, por isso, é preciso viver de acordo com os valores
eternos, os valores de Deus. Assim, na perspectiva dos crentes, não são os
valores efémeros, os valores deste mundo (o dinheiro, o poder, os êxitos
humanos) que devem constituir a prioridade e que devem dominar a existência,
mas sim os valores de Deus. Quais são os valores que eu considero prioritários
e que condicionam as minhas opções?
• A certeza da segunda vinda do Senhor
aponta também no sentido da esperança. Os cristãos esperam, em s
erena expectativa, a salvação que já receberam antecipadamente com a morte de
Cristo, mas que irá consumar-se no "dia do Senhor". Os crentes são,
pois, homens e mulheres de esperança, abertos ao futuro - um futuro a
conquistar, já nesta terra, com fé e com amor, mas sobretudo um futuro a
esperar, como dom de Deus.
ALELUIA - Jo 15,4a.5b
Aleluia. Aleluia.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em
vós, diz o Senhor.
Quem permanece em Mim dá fruto abundante.
EVANGELHO - Mt 25,14-30
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo
segundo São Mateus
Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.
A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,
conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.
O que tinha recebido cinco talentos
fê-los render e ganhou outros cinco.
Do mesmo modo,
o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera um só talento
foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos
e foi ajustar contas com eles.
O que recebera cinco talentos aproximou-se
e apresentou outros cinco, dizendo:
'Senhor, confiaste-me cinco talentos:
aqui estão outros cinco que eu ganhei'.
Respondeu-lhe o senhor: 'Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor'.
Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:
'Senhor, confiaste-me dois talentos:
aqui estão outros dois que eu ganhei'.
Respondeu-lhe o senhor: 'Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor'.
Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:
'Senhor, eu sabia que és um homem severo,
que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.
Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence'.
O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso,
sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;
devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro
e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.
Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.
Porque, a todo aquele que tem,
dar-se-á mais e terá em abundância;
mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.
Aí haverá choro e ranger de dentes'».
AMBIENTE
Mais uma vez, o Evangelho apresenta-nos
um extracto do "discurso escatológico" (cf. Mt 24-25), onde Mateus
aborda o tema da segunda vinda de Jesus e define a atitude com que os
discípulos devem esperar e preparar essa vinda.
A catequese que Mateus apresenta neste discurso tem em conta as necessidades da
sua comunidade cristã. Estamos no final do séc. I (década de 80). Os cristãos,
fartos de esperar a segunda vinda de Jesus, esqueceram o seu entusiasmo
inicial... Instalaram-se na mediocridade, na rotina, no comodismo, na
facilidade. As perseguições que se adivinham provocam o desânimo e a
deserção... Era preciso reaquecer o entusiasmo dos crentes, redespertar a fé,
renovar o compromisso cristão com Jesus e com a construção do Reino.
É para responder a este contexto que Mateus reelabora o "discurso
escatológico" de Marcos (cf. Mc 13) e compõe, com ele, uma exortação
dirigida aos cristãos. Lembra-lhes que a segunda vinda do Senhor está no horizonte
final da história humana; e que, até lá, os crentes devem "pôr a render os
seus talentos", vivendo na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e
comprometidos com a construção do Reino.
A parábola que hoje nos é proposta fala de "talentos" que um senhor distribuiu
pelos servos. Um "talento" significa uma quantia muito
considerável... Corresponde a cerca de 36 quilos de prata e ao salário de
aproximadamente 3.000 dias de trabalho de um operário não qualificado.
MENSAGEM
A "parábola dos talentos"
conta que um "senhor" partiu em viagem e deixou a sua fortuna nas
mãos dos seus servos. A um, deixou cinco talentos, a outro dois e a outro um.
Quando voltou, chamou os servos e pediu-lhes contas da sua gestão. Os dois
primeiros tinham duplicado a soma recebida; mas o terceiro tinha escondido
cuidadosamente o talento que lhe fora confiado, pois conhecia a exigência do
"senhor" e tinha medo. Os dois primeiros servos foram louvados pelo
"senhor", ao passo que o terceiro foi severamente criticado e condenado.
Provavelmente a parábola, tal como saiu da boca de Jesus, era uma
"parábola do Reino". O amo exigente seria Deus, que reclama para Si
uma lealdade a toda a prova e que não aceita meias tintas e situações de
acomodação e de preguiça. Os servos a quem Ele confia os valores do Reino devem
acolher os seus dons e pô-los a render, a fim de que o Reino seja uma
realidade. No Reino, ou se está completamente comprometido, ou não se está.
Depois, Mateus pegou na mesma parábola e situou-a num outro contexto: o da
vinda do Senhor Jesus, no final dos tempos... A vinda do Senhor é uma certeza;
e, quando Ele voltar, julgará os homens conforme o comportamento que tiverem
assumido na sua ausência.
Nesta versão da parábola, o "senhor" é Jesus que, antes de deixar
este mundo, entregou bens consideráveis aos seus "servos" (os
discípulos). Os "bens" são os dons que Deus, através de Jesus,
ofereceu aos homens - a Palavra de Deus, os valores do Evangelho, o amor que se
faz serviço aos irmãos e que se dá até à morte, a partilha e o serviço, a misericórdia
e a fraternidade, os carismas e ministérios que ajudam a construir a comunidade
do Reino... Os discípulos de Jesus são os depositários desses "bens".
A questão é, portanto, esta: como devem ser utilizados estes "bens"?
Eles devem dar frutos, ou devem ser conservados cuidadosamente enterrados? Os
discípulos de Jesus podem - por medo, por comodismo, por desinteresse - deixar
que esses "bens" fiquem infrutíferos?
Na perspectiva da nossa parábola, os "bens" que Jesus deixou aos seus
discípulos têm de dar frutos. A parábola apresenta como modelos os dois servos
que mexeram com os "bens", que demonstraram interesse, que se
preocuparam em não deixar parados os dons do "senhor", que fizeram
investimentos, que não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça,
pela rotina, ou pelo medo.
Por outro lado, a parábola condena veementemente o servo que entregou intactos
os bens que recebeu. Ele teve medo e, por isso, não correu riscos; mas não só
não tirou desses bens qualquer fruto, co
mo também impediu que os bens do "senhor" fossem criadores de vida
nova.
Através desta parábola, Mateus exorta a sua comunidade no sentido de estar
alerta e vigilante, sem se deixar vencer pelo comodismo e pela rotina. Esquecer
os compromissos assumidos com Jesus e com o Reino, demitir-se das suas
responsabilidades, deixar na gaveta os dons de Deus, aceitar passivamente que o
mundo se construa de acordo com valores que não são os de Jesus, instalar-se na
passividade e no comodismo, é privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a
que têm direito.
O discípulo de Jesus não pode esperar o Senhor de mãos erguidas e de olhos
postos no céu, alheado dos problemas do mundo e preocupado em não se contaminar
com as questões do mundo... O discípulo de Jesus espera o Senhor profundamente
envolvido e empenhado no mundo, ocupado em distribuir a todos os homens seus
irmãos os "bens" de Deus e em construir o Reino.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes
dados:
• Antes de mais, é preciso ter presente
que nós, os cristãos, somos agora no mundo as testemunhas de Cristo e do
projecto de salvação/libertação que o Pai tem para os homens. É com o nosso
coração que Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo;
é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e
desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os
imigrantes que fogem da miséria e da degradação; é com as nossas mãos que Jesus
continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos; é com os
nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e
abandonado; é com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as
multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada
têm... Nós, cristãos, membros do "corpo de Cristo", que nos
identificamos com Cristo, temos a grave responsabilidade de O testemunhar e de
deixar que, através de nós, Ele continue a amar os homens e as mulheres que
caminham ao nosso lado pelos caminhos do mundo.
• Os dois "servos" da parábola
que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os "bens" que o
"senhor" lhes deixou, mostram como devemos proceder, enquanto
caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Eles tiveram a
ousadia de não se contentar com o que já tinham; não se deixaram dominar pelo
comodismo e pela apatia... Lutaram, esforçaram-se, arriscaram, ganharam. Todos
os dias, há cristãos que têm a coragem de arriscar. Não aceitam a injustiça e
lutam contra ela; não pactuam com o egoísmo, o orgulho, a prepotência e
propõem, em troca, os valores do Evangelho; não aceitam que os grandes e
poderosos decidam os destinos do mundo e têm a coragem de lutar objectivamente
contra os projectos desumanos que desfeiam esta terra; não aceitam que a Igreja
se identifique com a riqueza, com o poder, com os grandes e esforçam-se por
torná-la mais pobre, mais simples, mais humana, mais evangélica; não aceitam
que a liturgia tenha de ser sempre tão solene que assuste os mais simples, nem
tão etérea que não tenha nada a ver com a vida do dia a dia... Muitas vezes,
são perseguidos, condenados, desautorizados, reduzidos ao silêncio,
incompreendidos; muitas vezes, no seu excesso de zelo, cometem erros de
avaliação, fazem opções erradas... Apesar de tudo, Jesus diz-lhes: "muito
bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as
grandes. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor".
• O servo que escondeu os
"bens" que o Senhor lhe confiou mostra como não devemos proceder,
enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Esse servo
contentou-se com o que já tinha e não teve a ousadia de querer mais;
entregou-se sem luta, deixou-se dominar pelo comodismo e pela apatia... Não
lutou, não se esforçou, não arriscou, não ganhou. Todos os dias há cristãos que
desistem por medo e cobardia e se demitem do seu papel na construção de um
mundo melhor. Limitam-se a cumprir as regras, ou a refugiar-se no seu cantinho
cómodo, sem força, sem vontade, sem coragem de ir mais além. Não falham, não
cometem "pecados graves", não fazem mal a ninguém, não correm riscos;
limitam-se a repetir sempre os mesmos gestos, sem inovar, sem purificar, sem
nada transformar; não fazem, nem deixam fazer e limitam-se a criticar
asperamente aqueles que se esforçam por mudar as coisas... Não põem a render os
"bens" que Deus lhes confiou e deixam-nos secar sem dar frutos. Jesus
diz-lhes: "servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e
recolho onde não lancei; devias, portanto, depositar o meu dinheiro no banco e
eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu".
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 33º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 33º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
Aquilo que terá sido pensado e rezado em termos de "balanço de
competência" ou de balanço dos talentos recebidos pode tornar-se oferenda.
Aqueles que quiserem poderão escrever em pequenos papéis, oferecidos no momento
da apresentação dos dons, duas palavras: uma, dizendo um "talento"
recebido ou uma competência (habilidade, tempo livre...); outra, dizendo a
maneira como ele "frutifica" (equipa de decoração da paróquia, visita
aos doentes...).
3. PALAVRA DE VIDA.
Quantos homens, mulheres e crianças, em todo o mundo, mas também perto de nós,
lançam SOS para que a sua vida seja salva, e que eles possam viver de pé,
dignamente, humanamente! Jesus ouviu os seus gritos, escutou-os, respondeu-lhes
com uma palavra, um olhar, um gesto, e era sempre para transmitir dignidade,
confiança, saúde, paz. Fechamos hoje os nossos ouvidos? Agarramo-nos às nossas
riquezas? E se fizéssemos um desvio no nosso caminho para nos aproximarmos,
para nos fazermos próximo de todos aqueles que caíram na beira do caminho?
4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
A oração do Pai Nosso... O Pai Nosso é muitas vezes uma oração mecânica,
maquinal, rotineira. À força de tanto o recitar, não damos a devida atenção ao
que dizemos. É preciso aproveitar uma celebração dominical para fazer
reencontrar todo o seu valor: é a oração que Jesus formulou e ensinou aos seus
discípulos. Cantado ou recitado, pode-se fazer uma breve introdução e deixar um
breve tempo de silêncio antes de rezar o Pai Nosso. Recitação bem pausada, com
as mãos erguidas ou unidas a quem está ao nosso lado...
5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
Fazer o ponto da situação sobre os nossos talentos... E se aproveitássemos a
parábola de hoje para fazer o ponto da situação sobre os "talentos"
que recebemos e aqueles que ganhámos? Discernir em conjunto pode ajudar a
perceber estes frutos em Igreja e a dar graças por eles.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
Tel. 218540900 - Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org
Eu, Jair Ferreira da Cidade de Cruz das Almas, na Bahia da Diocese Nossa Senhora do Bom Sucesso, leio e reflito sobre as leituras diária dessa equipe(José Salviano, Helena Serpa, Olívia Coutinho, Dehoniamos, Jorge Lorente, Vera Lúcia, Maria de Lourdes Cury Macedo, Adélio Francisco) colocando em prática no meu dia-dia, obrigado a todos que doaram um pouco do seu tempo para evangelizar, catequizar e edificar o reino de Deus, que o Senhor Jesus Cristo e Nossa Mãe Maria Santíssima continue iluminando a todos. Abraços fraternos.
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