5º DOMINGO DO TEMPO COMUM 7/02/2016
1ª Leitura Isaias 6, 1-2 a. 3-8
Salmo 137 (138) , 1 c “Na presença dos Anjos eu vos cantarei”
2ª Leitura 1 Cor 15, 1-11
Evangelho Lucas 5, 1-11
“CHAMADOS
PARA O DESAFIO”
Não sei se os quatro primeiros discípulos, André,
Pedro, Tiago e João, estavam de bom humor ao serem chamados por Jesus á margem
do Lago de Genesaré, quando trabalhavam duramente limpando suas redes dos
“enroscos” que havia nelas, após uma noite de pescaria fracassada. É bom
lembrar que tratava-se de um trabalho profissional e não de uma pescaria de
lazer, como é uma prática mais perto da nossa realidade.
A proposta de Jesus ao grupo de pescadores
parecera descabida, ele pedia-lhes para que insistissem em uma tarefa, que não
dera certo ao longo de uma jornada inteira de trabalho noturno, de um jeito
diferente, jogando as redes onde ele fosse indicar.
Ora, que profissional aceitaria orientação de um
estranho em seu trabalho? O horário era desfavorável, quem conhece o litoral
sabe que os barcos pesqueiros trabalham à noite, e que de manhã é hora de
contabilizar os ganhos com a descarga dos peixes na praia. A proposta vinha
como um desafio e implicava em aceitar ou não a palavra de Jesus. Após terem
aceitado, fizeram conforme o Senhor lhes ordenara e o resultado fora
surpreendente: as redes não resistiram a quantidade de peixes apanhados, sendo
necessário partilhar a tarefa com companheiros da outra barca.
Nas barcas de nossas comunidades o resultado do
nosso trabalho nem sempre é o que esperamos, pois é preciso estar sempre
preparados para o fracasso das “noites” em que as redes voltam vazias, com
“coisas indesejadas” que somos obrigados a ‘limpar”, buscamos a santidade de
uma vida em comunhão, na justiça, partilha, fraternidade, mas muitas vêzes
acabamos encontrando fofocas, intrigas, divisões, coisas que estão em nossa
rede embora não façam parte da vida da comunidade, não as queremos, ninguém as
deseja, mas elas estão lá, exigindo um trabalho de superação que requer muita
paciência e compreensão. Quem já tirou enrosco de uma linha de pesca ou de uma
rede, sabe que não é tarefa das mais fáceis.
E de repente, em meio a essa tarefa somos chamados
como os primeiros discípulos à “irmos mais fundo”, avançando para águas mais
profundas. Será que o nosso papel na comunidade é só ficar consertando as
coisas que não deram certo? Claro que não!
A missão primária da igreja não é a excessiva
preocupação com si mesma, sua estrutura e seu funcionamento, mas sim em
anunciar aos de fora o evangelho de Cristo. Por experiência própria e muitas
vezes por puro comodismo, achamos que o trabalho proposto por Jesus não dará
nenhum resultado e na maioria das vezes em que o nosso coração nos pede mais
ousadia na missão, acabamos preferindo as águas sempre rasas da nossa
comunidade, grupo, pastoral, movimento ou associação onde é sempre muito fácil
falar de Jesus e do seu evangelho, pois todos gostam, aceitam e até aplaudem!
As pessoas vêm até nós e assim passamos o nosso
tempo “pescando” no aquário, onde até causamos espanto e admiração, não pelo
resultado do trabalho, mas apenas pela nossa performance e desempenho.
Não foi para isso que Jesus chamou os discípulos
e nem é para isso que o Senhor nos chamou. Ser missionário é sair do nosso
“mundinho” conhecido e entrar na realidade desconhecida das pessoas, lá onde
elas estão e vivem, feiras livres, shopings, grandes avenidas, condomínios
residenciais de alto luxo, favelas e áreas verdes, onde o medo do narcotráfico
mata qualquer esperança.Em nossos hospitais, presídios, asilos etc. E se
acharmos que a tarefa é muito grande para as nossas modestas possibilidades,
então podemos começar pelas nossas famílias e ambiente de trabalho.
O verdadeiro missionário vai sempre além de suas
expectativas, do seu conhecimento, da sua bagagem e experiência, ele sabe que
sempre há o risco de um fracasso, mas arrisca-se de maneira corajosa porque é o
Senhor quem determina. “...em atenção á sua palavra, vou lançar as redes”.
Quando assim
fazemos, acabamos nos surpreendendo com o resultado e rapidamente, como
Pedro, descobriremos que não foram nossas aptidões, mas sim a graça de Deus que
realizou a missão, dando os frutos em quantidade muito maior do que
esperávamos.
E ao tomarmos conhecimento de que a graça de
Deus, derramada por Jesus Cristo, move-se e age mesmo em cima de nossas
fraquezas e erros, somos tomados pelo medo de nos entregarmos totalmente a
Deus.
Então aí só nos resta um caminho: confiar em
Jesus e vivermos somente á luz da fé, na certeza de que doravante faremos não
do nosso modo, mas do modo dele, mesmo que isso signifique ir contra a nossa
lógica e razão.
Essa atitude requer uma ruptura até mesmo com
aquilo que nos pareça ser essencial, os primeiros discípulos abandonaram na
praia as redes e o barco e seguiram a Jesus, pois é impossível edificarmos o
reino de Deus do nosso modo.
Pensemos em nossa vocação e nos perguntemos em
que águas andamos “pescando”. A resposta irá exigir de nós uma atitude, a
partir do evangelho.(Diácono José da Cruz – Paróquia Nossa Senhora Consolata –
Votorantim SP – E-mail cruzsm@uol.com.br)
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