No Evangelho do domingo passado,
víamos que Jesus, andando de cidade em cidade, ficava famoso; as pessoas já o
conheciam e o admiravam. Num dia de sábado, ele retorna a Nazaré, cidade onde
cresceu, entra na sinagoga e lê em voz alta um trecho do profeta Isaías. Todos
os que estavam ali o observavam, curiosos para saber o que Ele tinha pra dizer.
Para estes, Jesus leu Is 61,1-2 e explicou que naquele momento em que estava
lendo, todos que o escutavam, experimentavam o cumprimento daquela Palavra de
Deus, a qual tornava-se verdadeira “hoje”. Este “hoje” nunca acaba. Ainda
continua, agora! Graças a Jesus, os cegos recobram a vista, os prisioneiros são
libertados, aos pobres é anunciada a Boa Nova. O que Jesus disse é um programa
de vida não só para Ele, mas para todos que O seguem.
No Evangelho de hoje, que é
continuação daquele que Lucas começou a contar domingo passado, vemos como
terminou a visita de Jesus a sua cidade. Esta informação é significativa, pois
nos mostra um Jesus ligado a um determinado lugar, a pessoas. Também nós temos
este sentimento em relação ao lugar onde nascemos, onde passamos nossa infância
e ao qual de tempos em tempos gostamos de retornar para rever amigos e
familiares.
A reação dos habitantes de Nazaré tem
dois aspectos com relação a Jesus: por um lado, estes ficaram “admirados com as
palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” (4,22). Por outro lado, com a
pergunta: “Não é este o filho de José?”, todos ficaram surpresos com tudo o que
Jesus diz e faz, porque, no fundo, em Nazaré, todos já o conheciam há muito
tempo. Sabem que Ele é o filho de Maria e de José, O viram quando menino
brincar pelas ruas da cidadezinha com outras crianças. Todos se lembravam
quando Ele estava lá na carpintaria, trabalhando com seu pai. Todos sabiam como
Jesus tinha crescido modestamente e sem estudar, e agora fala com encanto e
autoridade.
Mas, tem outra coisa: os habitantes
de Nazaré souberam que enquanto anuncia a Boa Nova, Jesus também realiza
milagres; e, também eles, não vêem a hora de Jesus fazer algum sinal no meio
deles. Porém, para a sua surpresa, Jesus deixa claro que não fará nenhum
milagre. Frente às indagações, Ele não permanece calado e cita um provérbio
popular: “nenhum profeta é bem aceito em sua pátria”. Que no nosso contexto, se
expressa melhor assim: “santo de casa não faz milagre”. Jesus ilustra isso,
relembrando os profetas Elias e Eliseu, os quais operaram milagres para pessoas
que não pertenciam ao seu povo. Na verdade, Jesus é impedido de fazer milagres
em Nazaré por causa da incredulidade das pessoas.
“Quando ouviram estas palavras de
Jesus”, todos ficaram decepcionados e com muita raiva. Sentiram-se ofendidos, e
querem expulsar Jesus da cidade. Jesus é rejeitado. Que momento difícil!
Podemos pensar nas pessoas empurrando, insultando Jesus. Ele sente essa
corrente de rejeição que se move contra ele, que O conduz ao monte a fim de
lançá-lo ao precipício. É uma cena de ficar assustado. Porém, Jesus não se
deixa levar por aquela raiva nem por aqueles gritos: permanece tranquilo. Sem
dizer nada, se mistura à multidão e retoma seu caminho. Podemos imaginar com
quanto desgosto. Tinha chegado a Nazaré em meio a aplausos, e agora deve
escapar em silêncio.
Ninguém está livre da rejeição, nem
mesmo Jesus Cristo esteve. Ser rejeitado e sentir-se rejeitado certamente não
são experiências agradáveis. Quem já passou por uma grande rejeição sabe muito
bem o sentimento que ela provoca. Jesus passou por essas experiência, sentiu-se
rejeitado e desprezado por sua própria gente. Também em nossas comunidades,
isso acontece bastante. Pessoas sentem-se não aceitas, não acolhidas.
Há muitas causas de rejeição: abuso
físico, verbal, sexual, emocional; conflitos no lar, adoção, abandono,
infidelidade no casamento, deficiências física e mental, divórcio, rejeição dos
colegas, etc. E isto traz muitas consequências negativas durante a vida das
pessoas, como a rebelião, a ira, a amargura, a culpa, a inferioridade, a mania
de criticar, o medo, a desesperança, a dureza, a desconfiança, o desrespeito, a
competição, o ciúme, o perfeccionismo, o consumo de drogas e álcool etc. Tudo
isso mostra de alguma forma o resultado de uma rejeição sofrida. Enfim, Jesus
não tinha de enfrentar aquela rejeição por sua própria causa. Ele não tinha
problemas. Nós sim temos problemas! Assim, Ele, voluntariamente, desejou vir e
tomar nossos problemas, nossas feridas, nossa dores e até nossas rejeições , e
levá-las a Si mesmo. Ele nos ensina que “hoje” (a cada instante) se cumpre sua
Palavra, a qual, nos encoraja a continuar o caminho, deixando o que passou para
trás e prosseguindo para o alvo que é o próprio Jesus.
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