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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Evangelhos Dominicais Comentados-Jorge Lorente


03/julho/2016 – São Pedro e São Paulo

Evangelho: (Mt 16, 13-19)

Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.»

COMENTÁRIO

Na liturgia, hoje celebramos a festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo. De perseguidor dos cristãos, Paulo transformou-se num dos maiores defensores do cristianismo. Hoje, carinhosamente também nos lembramos do Santo Padre o Papa Francisco, o legítimo sucessor de São Pedro.

O Papa é o verdadeiro representante de Jesus na terra. Jesus fez de Simão Pedro a pedra de sustentação da sua Igreja, pois encontrou muita firmeza e sinceridade nas suas palavras. "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!"

Esta afirmação foi feita pelo Espírito Santo, através de Pedro. Nestas palavras encontramos a grande prova da presença do Espírito Santo entre os apóstolos. O evangelho de hoje sugere que nos deixemos guiar pelo Espírito. O Espírito Santo encoraja, abre os olhos e os corações.

Alguns achavam que Jesus era João Batista, outros diziam que era Elias ou algum dos profetas. Ainda hoje, ouvimos muitas referências a respeito de Jesus. Dois mil anos depois e ainda o chamam de homem excepcional, de grande mestre ou dizem que Jesus foi o maior dos profetas. Muitos o conhecem por diversos títulos, poucos o reconhecem como Verdadeiro Deus.

“Quem sou eu para vocês?” Já pensou, se Jesus aparecesse hoje e nos fizesse esta pergunta, o que diríamos? É provável que a nossa resposta seria igualzinha àquela de Pedro. Sem pestanejar, e talvez sem muita convicção, gritaríamos essa frase feita: “Tu és o Messias, o Filho de Deus Vivo!”

Provavelmente, Jesus insistiria para obter uma resposta individual e concreta. Talvez dissesse: “É isso mesmo que você pensa, ou é o que você ouve desde pequeno na catequese, nas homilias e, até mesmo em aulas de teologia?”

“Quero saber mais” - diria. “Quero uma resposta lá do fundo do seu coração; que influência eu exerço em sua vida e quais as mudanças que essa fé trouxe para a sua vida familiar, profissional e comunitária?” Diria ainda, “Só mais uma perguntinha: o que você tem feito para propagar essa verdade?”

O que responder? É bom estarmos preparados, pois certamente seremos cobrados. Somos batizados, somos Igreja, e como membros dessa Família temos que evangelizar, gritar com convicção, para que o mundo todo ouça que Jesus, o Ungido, o Messias e Verdadeiro Deus está entre nós. 

Feliz aquele que acredita e propaga o que o Pai do Céu revelou. Feliz aquele que assume a sua função na construção do Reino. Sejamos pedra, sejamos Pedro, homem de fé, que apesar dos seus momentos de covardia e de fraquezas, sabia humildemente arrepender-se e recomeçar tudo de novo.

Hoje comemoramos também São Paulo. Paulo não fez parte do grupo dos doze, mas foi chamado por Jesus no momento em que se preparava para prender muitos cristãos. Paulo não fechou seus ouvidos. Ouviu e entendeu as Palavras de Jesus. Deixou-se invadir pelo Espírito Santo e entregou-se de corpo e alma ao serviço da evangelização.

Paulo mudou, transformou-se. Passou de perseguidor, a seguidor de Jesus Cristo. Aquele que exterminava cristãos entregou sua própria vida para levar vida às comunidades cristãs. Foi radical a mudança de Paulo.

É exatamente isso que Jesus espera de cada um de nós. Quer que nos tornemos “Pedros”, quer ver-nos convertidos em “Paulos”. Jesus quer ver suas ovelhas apascentadas e quer que façamos das nossas vidas uma carta viva, com exemplos concretos, de como viver o amor.

(1710) 




terça-feira, 28 de junho de 2016

-SÃO PEDRO E SÃO PAULO-José Salviano

SÃO PEDRO E SÃO PAULO
SOLENIDADE

3 de Julho – c

1ª Leitura - At 12,1-11

Salmo 33

2ª Leitura - 2Tm 4,6-8.17-18


Evangelho - Mt 16,13-19


Hoje a Igreja celebra a festa de Pedro e Paulo, duas colunas básicas da nossa fé. Depois de Jesus, são eles que representam a força da nossa crença. Por que a fé que professamos hoje, é uma herança do trabalho missionário dos apóstolos, especialmente de Pedro e de Paulo.
Pedro foi o primeiro a divulgar os ensinamentos de Cristo, espalhando por muitos lugares a fé, e com isso ele fundou a Igreja primitiva.
Paulo, que de perseguidor dos cristãos passou a ser perseguido pelo fato de proclamar a fé.


PRIMEIRA LEITURA
Pedro estava dormindo do lado de dois fortes soldados. Havia mais soldados nas portas da prisão...
As correntes se soltaram...  o portão abriu-se sozinho...
Você quer mais? Quer mais demonstração do poder de Deus em ação?
O poder de Deus libertou Pedro naquela noite de forma espetacular.
É esse mesmo poder que acompanha a Igreja, libertando-a de todas as amarras e correntes do mundo. Esse mesmo poder que dá forças aos sacerdotes para resistirem a todos os convites e tentações, para largar a sua missão, e seguir as enganações, ou caminhos e estradas tortuosas do mundo.
É esse poder que nos liberta de nossas correntes.  Aquelas que nos prendem ao vício, ao desequilíbrio moral, ao egoísmo, a ambição, a corrupção, enfim, a uma vida sem Deus, voltada para os bem materiais, e ao prazer pelo prazer.
Só Deus por meio de Jesus pode fazer este milagre. Só o infinito poder que soltou as correntes e abriu o portão, e que não deixou os guardas daquela prisão impedir a fuga de Pedro, só esse poder infinito pode nos libertar de tudo o que nos impede de sermos cristãos autênticos!
Senhor!  Faça um milagre desses também na minha vida!  Liberta-me de todas as minhas prisões!
Senhor Jesus! Liberta os nossos jovens de todas as suas prisões. Eles estão hipnotizados pelo mal, eles não sabem o mal que estão fazendo para si mesmos e para todos os seus entes queridos!

SALMO

SEGUNDA LEITURA
Paulo incansável missionário, apóstolo enviado por Deus, apóstolo que se dedicou plenamente a Causa do Reino, com a orientação e proteção de Deus.
É interessante lembrar aqui, que Paulo não foi um dos discípulos que seguiu Jesus. Pelo contrário, Paulo a serviço do poder Romano que dominava aquela região, fazia uma perseguição feroz aos cristãos.
E naquele dia quando se dirigia a mais uma tarefa perseguidora, na estrada de Damasco, Jesus com sua mão forte o interpela, dizendo:
Paulo, por que me persegues, e o convida a mudar de lado. Convida-o a conversão, a mudar de direção, e passar a ser um agente, um missionário a serviço do Reino de Deus, para a salvação da humanidade.
Queridas e queridos irmãos. Hoje Jesus está também convidando a cada um de nós a mudar o rumo da nossa vida, a largar o pecado, o egoísmo, as ambições exageradas dessa vida passageira, e nos dedicar ao serviço do Evangelho, com a graça e com o poder da Santíssima Trindade.
Paulo na Estrada de Damasco aceitou a proposta de Cristo, e de perseguidor dos cristãos, passou a divulgar os ensinamentos de Jesus por todos os cantos com muita coragem e determinação, sem medir esforços e dificuldades as quais foram muitas, até o seu martírio final.
E quando esse momento estava próximo, Paulo em sua carta a Timóteo, uma demonstração de orgulho pelo prazer do dever cumprido, dizendo: “Combati o bom combate, terminei a minha corrida e conservei a fé”. Paulo, depois da experiência dom Deus na estrada de Damasco, passou a ser um homem repleto do Espírito Santo, o que lhe dava aquela coragem capaz de enfrentar a todas as diversidades, principalmente os poderosos da época, contrários ao cristianismo e a Igreja que se iniciava.
Meus irmãos, e irmãs. É assim que devemos ser. Não importa as dificuldades que enfrentamos no nosso dia a dia, a fé deve ser guardada, preservada, como o fez Paulo. E ele sintetiza a sua coragem e dedicação ao serviço do Reino com essas frases que nos convida a repeti-las diariamente e praticá-las:
“Tenho por lixo tudo o que não for Cristo Jesus”. “Para mim, viver é Cristo”. “Tudo posso naquele que me conforta”.
Sigamos os passos de Paulo, pois esse mundo está se despencando! Esse mundo está precisando de muitos Paulos, e nós, o que estamos esperando?
Até quando vamos ficar aqui parados, presos nas correntes da nossa pouca fé, da nossa indiferença, da nossa falta de coragem, da nossa falta de confiança em Deus?
Vamos, minhas irmãs, e meus irmãos! O mundo precisa de nós. Do nosso empenho, da nossa CATEQUESE, a exemplo da catequese espetacular do corajoso Paulo!

EVANGELHO
Hoje celebramos também o dia do Papa, o sucessor de Pedro. O Papa é o representante maior de Jesus na Terra. O Papa é um homem como qualquer outro, porém, com uma diferença. Ele, assim como Pedro, é um escolhido para apascentar o rebanho de Cristo.
Todo o cristão tem o dever de respeitar e seguir as suas orientações, e principalmente o dever de rezar por ele.
O Papa é guiado pelo Espírito Santo. Por isso, ao se seguirmos o Papa, estamos também seguindo o Espírito de Deus.
Pedro foi considerado pedra por Jesus. Pedra que formou o alicerce, a base de construção da Igreja. A importância de Pedro e de Paulo é gigantesca. Foram eles que enfrentando muitas adversidades, iniciaram a construção da Igreja criada por Jesus. 
Jesus ao dizer a Pedro: Tu és pedra, quis dizer que ele seria a pedra do alicerce sobre o qual seria construída a Igreja. Quis expressar que ele, Pedro, aquele que o negou três vezes, seria o primeiro papa da sua Igreja.
Pedro que liderava o grupo dos discípulos, depois apóstolos, apesar das três negações naquela noite, foi um grande seguidor de Jesus.
Ele foi uma das primeiras testemunhas da ressurreição do Mestre;
Exerceu grande capacidade de liderança no grupo dos escolhidos por Jesus;
Não quis deixar que Jesus lavasse os seus pés. Porém, ao ouvir a explicação de Jesus sobre aquele ato, pediu para que lhe lavasse o corpo todo;
Em um ato de coragem e proteção ao Filho de Deus, Pedro puxa a espada e corta a orelha daquele soldado que veio para prender Jesus;
No dia da transfiguração, ele pede autorização a Jesus para construir tendas bem ali, para continuar a saborear aquele momento de espetacular experiência divina;
E entre outras demonstrações de fé e coragem, foi Pedro quem disse:
A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna
Prezadas irmãs, e irmãos. As vidas de Pedro e de Paulo, nos leva a refletir sobre o comodismo da nossa prática de fé. Estamos mesmo engajados no projeto de Deus? Seríamos capazes de dar a nossa vida pelo Evangelho? Até que ponto somos fiéis a Deus? Eles evangelizaram nas mais difíceis situações. Enquanto nós, fazemos o mesmo com todo conforto, temos microfones para poupar a nossa voz, temos transportes a toda hora, temos projetor de slides, temos energia, água encanada, entre outras infraestruturas que Pedro e Paulo não tinham.  Mesmo assim, alegamos cansaço e falta de apoio no nosso desempenho para servir a Deus pela catequese.
Que Deus faça de nós o que fez a Paulo na estrada de Damasco, e que nos transformemos em anunciadores corajosos do Evangelho, e sejamos imitadores e seguidores de Pedro e Paulo, para que continuemos na nossa missão de transformar o mundo!


Tenha um bom domingo, José Salviano.

O MAL NÃO SOBREPÕE O BEM. Olivia Coutinho

 
Dia 29 de Junho de 2016
 
Evangelho de Mt8,28-34
 
Deus nos deu a vida e todas as condições para sermos felizes, porém, Ele respeita a nossa liberdade, nos deixa livres para fazermos as nossas escolhas!
Somos nós que tecemos a nossa vida, e se queremos ser um belo tecido, temos que ter o cuidado de não nos deixar enganar pelas linhas falsas que nos são oferecidas pelas as esquinas da vida, são  essas  linhas falsas, que podem comprometer a beleza e a resistência do nosso tecido.
O evangelho que a liturgia de hoje coloca diante de nós, vem nos falar de um Deus comprometido com a vida em toda a  sua dimensão,  um Deus libertador que se revelou plenamente na pessoa de Jesus!
O texto nos diz, que dois homens,  possuídos pelo o demônio, vão ao encontro de Jesus para  atacá-Lo.  “O que tens a ver conosco,  Filho de Deus? A presença de Jesus, atormentou,  não aqueles dois homem em si, mas o mal que estava neles, naquele momento, o demônio (mal) sentiu   que poderia perde-los para Jesus! E foi o que aconteceu, a presença de Jesus, aniquilou a força do mal que estava dominando aqueles homens, os libertando para a vida!
O episódio nos mostra o poder de Jesus sobre o mal! Naquele encontro, não houve confronto, a presença de Jesus,  foi suficiente para fazer com que o mal  reconhecesse  o seu verdadeiro lugar, que no texto, é simbolizado pela manada de porcos!
Aqueles dois  homens possuídos pelo o demônio ( mal)  simboliza  todas  as  pessoas  que estão sendo escravizadas pelas forças do mal que os impede  de falar e de agir como sujeitos de sua própria história! Aí que entra a nossa responsabilidade cristã: nos tornar  caminho de libertação para estes, levando-os ao  encontro com Jesus!
 As estruturas do mal, conhecem quem é mais forte do que elas, quem  tem poder de destruí-las, por isto fazem de  tudo para eliminá-las,  mas não conseguem, pois o mal não encontra brecha no coração de quem vive integralmente em sintonia com  Deus!
Não  podemos negar a existência e a força do mal,  o mal existe e está sempre a nos rondar, mas ele só ganha força em nós, quando nos  distanciamos de Deus!
O mal não sobrepõe o bem, por isto, é importante estarmos sempre embebidos no amor do Pai, na força do Filho e sob a  luz do Espírito Santo! Só assim, estaremos imunizados contra a força do mal.
 Saber que Jesus é o Filho de Deus, todos sabem, até o demônio, o que faz a diferença mesmo, é saber quem é o Filho de Deus para nós!
 Conhecer Jesus, saber quais são as suas propostas, é  o primeiro passo de quem quer  fazer a melhor escolha para sua vida!
 
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos-Dehonianos


03/07/2016
ANO C
14º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 14º Domingo do Tempo Comum
Embora as leituras de hoje nos projectem em sentidos diversos, domina a temática do “envio”: na figura dos 72 discípulos do Evangelho, na figura do profeta anónimo que fala aos habitantes de Jerusalém do Deus que os ama, ou na figura do apóstolo Paulo que anuncia a glória da cruz, somos convidados a tomar consciência de que Deus nos envia a testemunhar o seu Reino.
É, sobretudo, no Evangelho que a temática do “envio” aparece mais desenvolvida. Os discípulos de Jesus são enviados ao mundo para continuar a obra libertadora que Jesus começou e para propor a Boa Nova do Reino aos homens de toda a terra, sem excepção; devem fazê-lo com urgência, com simplicidade e com amor. Na acção dos discípulos, torna-se realidade a vitória do Reino sobre tudo o que oprime e escraviza o homem.
Na primeira leitura, apresenta-se a palavra de um profeta anónimo, enviado a proclamar o amor de pai e de mãe que Deus tem pelo seu Povo. O profeta é sempre um enviado que, em nome de Deus, consola os homens, liberta-os do medo e acena-lhes com a esperança do mundo novo que está para chegar.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo deixa claro qual o caminho que o apóstolo deve percorrer: não o podem mover interesses de orgulho e de glória, mas apenas o testemunho da cruz – isto é, o testemunho desse Jesus, que amou radicalmente e fez da sua vida um dom a todos. Mesmo no sofrimento, o apóstolo tem de testemunhar, com a própria vida, o amor radical; é daí que nasce a vida nova do Homem Novo.

LEITURA I – Is 66,10-14c
Leitura do Livro de Isaías
Alegrai-vos com Jerusalém,
exultai com ela, todos vós que a amais.
Com ela enchei-vos de júbilo,
todos vós que participastes no seu luto.
Assim podereis beber e saciar-vos
com o leite das suas consolações,
podereis deliciar-vos no seio da sua magnificência.
Porque assim fala o Senhor:
«Farei correr para Jerusalém a paz como um rio
e a riqueza das nações como torrente transbordante.
Os seus meninos de peito serão levados ao colo
e acariciados sobre os joelhos.
Como a mãe que anima o seu filho,
também Eu vos confortarei:
em Jerusalém sereis consolados.
Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração
e, como a verdura, retomarão vigor os vossos membros.
A mão do Senhor manifestar-se-á aos seus servos.
AMBIENTE
Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías (designados genericamente como “Trito-Isaías”) são atribuídos pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente ao Deutero-Isaías (o autor dos capítulos 40-55 do Livro de Isaías). Sobre esses autores não sabemos rigorosamente nada, a não ser que apresentaram a sua mensagem nos últimos anos do séc. VI e primeiros anos do séc. V a.C.
Estamos em Jerusalém, vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia. A reconstrução faz-se muito lentamente e em condições penosas; a maioria da população de Jerusalém está mergulhada na miséria; os inimigos atacam continuamente e põem em causa o esforço da reconstrução; a esperança está em crise… O Povo pergunta: “quando é que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia, através do Deutero-Isaías?”
Os profetas da época procuram, então, apresentar uma mensagem de salvação e alimentar a esperança, a fim de que o Povo recobre forças e confie em Deus. É nesse contexto que podemos situar este hino que a primeira leitura de hoje nos propõe: o profeta apresenta um quadro de restauração da cidade (cf. Is 66,7-14) e convoca os seus habitantes para a alegria.

MENSAGEM
Neste quadro de restauração, o objectivo fundamental do profeta é “consolar” esse Povo martirizado, sofrido, angustiado, que não vê grandes perspectivas de futuro e já perdeu a esperança. Como é que o profeta vai “dizer” a mensagem que Deus lhe confiou?
Todo o quadro gira à volta da apresentação de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o seu filho (o povo), sem esforço e antes do tempo (cf. Is 66,7), a mãe/Jerusalém alimenta-o com um leite abundante e reconfortante (cf. Is 66,11). As expressões utilizadas (a referência ao “sugar o leite até à saciedade”, ao “seio glorioso”) evocam, de forma bem sugestiva, a imagem da fecundidade, da riqueza, da vida em abundância. Tudo é fácil, rápido, abundante, pleno… No entanto, o profeta está consciente de que é Deus que está por detrás desta corrente de vida e de fecundidade que a mãe/cidade dispensa ao filho/povo.
Na “tradução” da imagem, o profeta põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe (para que depois ela distribua pelo filho/povo) a paz e a riqueza das nações. A paz (“shalom”) exprime aqui bem mais do que a ausência de guerra: inclui saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros; é, portanto, sinónimo de felicidade total. É isso que Deus quer para o seu Povo e que Se propõe oferecer-lhe em abundância.
Particularmente sugestiva é a forma como se fala de Deus. Ele é o pai que dá ao filho/povo a vida abundante e plena, que o acaricia e consola como uma mãe. O profeta propõe ao seu Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões, para a reflexão:
• Esta proposta de “consolação” vem de Deus e atinge o coração do Povo através da acção e do testemunho profético. É através do profeta que Deus actua no mundo, que consola os corações feridos, que revitaliza a esperança, que salva da morte, que liberta do medo… Todos os crentes são profetas e todos comungam desta missão. Eu assumo e procuro concretizar, dia a dia, esta proposta profética e procuro testemunhar a esperança?
• Deus é o pai que dá vida em abundância e a mãe que acaricia e consola. É esta a perspectiva que temos d’Ele? Sabemos “ler” a nossa vida à luz da bondade de Deus, ver nos acontecimentos sinais do seu amor? Sabemos manifestar-Lhe a nossa gratidão? É este Deus de amor que procuramos testemunhar, com palavras e com gestos?
• O insistente convite à alegria feito pelo profeta atinge-nos também a nós… O medo e a angústia não podem ser os nossos companheiros de viagem, pois acreditamos no amor e na bondade desse Deus que nos acompanha, que nos acaricia, que nos consola e que faz nascer para nós, dia a dia, esse mundo novo de vida plena e abundante.
• Aqueles que a vida feriu e que perderam a esperança encontram nas nossas comunidades (cristãs ou religiosas) um testemunho que os consola e que os anima? Que temos para transmitir aos doentes incuráveis, aos que perderam a família e as referências e vivem na rua, aos imigrantes explorados, aos marginalizados, aos fracassados?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 65 (66)
Refrão: A terra inteira aclame o Senhor.
Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores, dizei a Deus:
«Maravilhosas são as vossas obras».
A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome.
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens.
Mudou o mar em terra firme,
atravessaram o rio a pé enxuto.
Alegremo-nos n’Ele:
domina eternamente com o seu poder.
Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia.

LEITURA II – Gal 6,14-18
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas
Irmãos:
Longe de mim gloriar-me,
a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo,
pela qual o mundo está crucificado para mim
e eu para o mundo.
Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa:
o que tem valor é a nova criatura.
Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma,
bem como para o Israel de Deus.
Doravante ninguém me importune,
porque eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus.
Irmãos, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo
esteja com o vosso espírito. Amen.
AMBIENTE
Terminamos hoje a leitura da Carta aos Gálatas. Nos domingos anteriores, já dissemos qual é a questão fundamental abordada nesta carta: face às exigências dos “judaízantes” (segundo os quais os cristãos, além de acreditar em Cristo, devem cumprir escrupulosamente a Lei de Moisés e, de forma especial, aderir à circuncisão), Paulo considera que só Cristo interessa e que tudo o resto são leis e ritos desnecessários ou, ainda pior, geradores de escravidão.
Este texto pertence à conclusão da carta (cf. Gal 6,11-18). É uma espécie de remate, no qual Paulo resume toda a sua argumentação anterior a propósito de Cristo, da Lei e da salvação.
MENSAGEM
Paulo começa por denunciar quais os interesses que movem os “judaízantes” que pregam a circuncisão: eles têm por finalidade evitar a perseguição (fazendo do cristianismo apenas um ramo do judaísmo e, por isso, uma “religião lícita” aos olhos do império); além disso, são pessoas desejosas de se evidenciar, para quem a circuncisão que impõem aos outros serve para mostrar o sucesso do seu proselitismo (o “prosélito” era um pagão convertido à observância da fé judaica)…
Isso não tem qualquer importância para Paulo. O único título de glória que interessa ao apóstolo é a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Falar da “cruz de Jesus Cristo” é falar do dom total da vida, da entrega de Si mesmo por amor. Esse (e não a circuncisão ou a prática dos rituais da Lei de Moisés) é que é o grande objectivo de Paulo e da sua pregação, pois é a morte para o egoísmo e o nascimento para o amor (cumpridos e representados na cruz) que fazem surgir o “Homem Novo”, o “Israel de Deus”, o novo Povo de Deus.
Precisamente aqui (vers. 15), Paulo inaugura um dos seus temas favoritos, ao qual voltará nas cartas posteriores: o tema do Homem Novo em Cristo Jesus. Na perspectiva paulina, a identificação do cristão com o Cristo da cruz – isto é, com o Cristo do amor total – fará surgir um Homem Novo, liberto do egoísmo e da preocupação consigo próprio, capaz de amar sem medida. Esse Homem Novo, imagem de Jesus Cristo, será capaz de superar o pecado e a morte e de chegar à vida plena, à felicidade total.
De resto, o próprio Paulo luta pessoalmente para chegar a esse objectivo. Aliás, ele já leva “no seu corpo as marcas de Jesus” (vers. 17). Esta indicação não parece referir-se à presença no corpo de Paulo dos sinais físicos da paixão de Jesus (“estigmas”), mas às cicatrizes reais deixadas pelas feridas recebidas por Paulo no exercício do seu apostolado. Na sociedade greco-romana, cada escravo levava uma marca, como sinal da sua pertença a um determinado dono; assim, as marcas do seu sofrimento por causa do Evangelho mostram que Paulo pertence a Cristo, que é propriedade d’Ele: por elas, Paulo demonstra a sua vontade de amar, de dar a vida e a sua pertença inalienável a esse Cristo cujo amor se fez entrega na cruz.
Esta carta é a única em que a palavra “irmãos” aparece na saudação final (vers. 18): é um grito, ao mesmo tempo de angústia e de confiança, que apela à comunhão e que manifesta a esperança no restabelecimento da fraternidade.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as seguintes questões:
• Como Paulo, cada crente é um enviado a testemunhar o Cristo da cruz – quer dizer, a anunciar a todos os homens que só no amor radical, no amor até às últimas consequências se gera vida e nasce o Homem Novo. Este caminho é, no entanto, um caminho de exigência, pois conduz ao confronto com o pecado, com o egoísmo, com a injustiça, com a opressão. Eu estou, como Paulo, disposto a percorrer este caminho, com coragem profética?
• Existe, por vezes, alguma perplexidade acerca da identidade fundamental do cristão. Qual é, verdadeiramente, a essência da nossa experiência cristã? O discípulo de Cristo é alguém que se distingue pelo uniforme que veste, pela cruz que traz ao pescoço, pelo papel que alguém assinou por ele no dia do baptismo, pelos ritos que cumpre, pela observância de certas leis, ou é alguém que se distingue pela sua identificação com Cristo – com o Cristo do amor, da entrega, do dom da vida?
• Quais são, verdadeiramente os nossos títulos de glória: a conta bancária, os diplomas universitários, o estatuto social, o êxito profissional, a visibilidade nas festas do “jet-set”, os “fans” incondicionais que circulam à nossa volta? Ou são os gestos de amor, de partilha, de doação, de entrega e as feridas recebidas a lutar pela justiça, pela verdade e pela paz?

ALELUIA – Col 3,15a.16a
Aleluia. Aleluia.
Reine em vossos corações a paz de Cristo,
habite em vós a sua palavra.

EVANGELHO – Lc 10,1-12.17-20
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.
E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».
AMBIENTE
O Evangelho situa-nos, outra vez, no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. Apresenta-nos mais uma etapa desse “caminho espiritual”, durante o qual Jesus vai oferecendo aos discípulos a plenitude da revelação do Pai e preparando-os para continuar, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.
A história do envio dos 72 discípulos é uma tradição exclusiva de Lucas. Seria uma história estranha e inesperada, se a víssemos como um relato fotográfico de acontecimentos concretos: de onde vêm estes 72, que não são nomeados nem por Mateus nem por Marcos e que aqui aparecem surgidos do nada? Trata-se, fundamentalmente, de uma catequese através da qual Lucas propõe, aos discípulos de todas as épocas, uma reflexão sobre a missão da Igreja, em caminhada pelo mundo.
MENSAGEM
Trata-se, portanto, de uma catequese. Nela, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, dessa proposta de salvação/libertação que Cristo veio trazer.
O texto começa por nos apresentar o número dos discípulos enviados: 72 (vers. 1). Trata-se, evidentemente, de um número simbólico, que deve ser posto em relação com Gn 10 (na versão grega do Antigo Testamento), onde esse número se refere à totalidade das nações pagãs que habitam a terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.
Depois, Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e trata-se de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária, que não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.
Lucas indica, ainda, que os discípulos são enviados às aldeias e localidades onde Jesus “devia de ir”. Dessa forma, indica que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois desta apresentação inicial, Lucas passa a descrever a forma como a missão se deve concretizar.
Há, em primeiro lugar, um aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (vers. 3). Trata-se de uma imagem que, no Antigo Testamento, descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos (cf. Ben Sira 13,17; nalgumas versões, esta imagem aparece em 13,21). Aqui, expressa a situação do discípulo fiel, frente à hostilidade do mundo.
Há, em segundo lugar, uma exigência de pobreza e simplicidade para os discípulos em missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforge, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (vers. 4); também não devem saltar de casa em casa (vers. 7). As indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; a indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a urgência da missão (que não permite deter-se nas intermináveis saudações típicas da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino – ser continuamente adiado); a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não o encontrar uma hospitalidade mais confortável.
Qual deve ser o anúncio fundamental que os discípulos apresentam? Eles devem começar por anunciar “a paz” (vers 5-6). Não se trata aqui, apenas, da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que preside ao Reino. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade (tudo aquilo que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”). Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (vers. 9).
As palavras de ameaça a propósito das cidades que se recusam a acolher a mensagem (vers. 10-11) não devem ser tomadas à letra: são uma forma bem oriental de sugerir que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida daqueles que escolhem continuar a viver em caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência.
Nos vers. 17-20, Lucas refere o resultado da acção missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos descrevem, figuradamente, a presença do Reino enquanto realidade libertadora (as serpentes e escorpiões são, frequentemente, símbolos das forças do mal que escravizam o homem; a “queda de Satanás” significa que o reino do mal começa a desfazer-se, em confronto com o Reino de Deus).
Apesar do êxito da missão, Jesus põe os discípulos de sobreaviso para o orgulho pela obra feita: eles não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas sim porque os seus nomes estão “inscritos no céu” (a imagem de um livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é frequente nesta época, particularmente nos apocalipses – cf. Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar as seguintes questões:
• O Evangelho que hoje nos é proposto sugere, essencialmente, que os discípulos – a totalidade dos discípulos – são responsáveis pela continuação no mundo do projecto libertador de Jesus, do projecto do Reino. Estamos verdadeiramente conscientes disto? Como é que, na prática, anunciamos Jesus? Jesus já chegou, efectivamente, ao nosso local de trabalho, à nossa escola, à nossa paróquia, à nossa comunidade religiosa? De quem é a responsabilidade, se Jesus ainda parece estar ausente de tantos sectores da vida de hoje? Conseguimos dormir tranquilos quando o egoísmo, a injustiça, a escravidão assentam arraiais à nossa volta e impedem o Reino de acontecer?
• O ser “cordeiro no meio de lobos” e o não levar “nem bolsa, nem alforge, nem sandálias” sugere que o anúncio do Reino não depende do poder dos instrumentos utilizados. Procurar conquistar poder económico ou político para depois impor o Evangelho, controlar os mass-media ou utilizar sofisticadas técnicas de marketing para “vender” a proposta do Reino é negar a essência do Evangelho – que é amor, partilha, serviço, vividos na simplicidade, na humildade, no despojamento…
• O “não andeis de casa em casa” sugere que o missionário deve contentar-se com aquilo que põem à sua disposição e viver com simplicidade e sem exigências. O seu objectivo não é enriquecer ou viver de acordo com o último grito do conforto ou da moda; a sua prioridade é o anúncio do Reino: tudo o mais é secundário.
• O anúncio do “Reino” não se esgota em palavras, mas deve ser acompanhado de gestos concretos… O missionário tem de mostrar nos seus gestos o amor, o serviço, o perdão, a doação que ele anuncia em palavras (se isso não acontecer, o seu testemunho é oco, hipócrita, incoerente e não convencerá ninguém).

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 14º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. ACOLHER OS FIÉIS DE PASSAGEM.
Os textos de hoje convidam-nos à alegria, a ver longe… Neste domingo e ao longo dos meses de Julho e Agosto (tempo de férias, de passagens…), deveria haver uma atenção particular aos fiéis de passagem. Logo no início da celebração, poder-se-á fazer uma referência e, se possível, uma breve apresentação (sobretudo nas assembleias menos numerosas). Poderá haver mesmo uma saudação inicial aos fiéis de passagem que estão na assembleia. O celebrante pode ainda dirigir algumas palavras noutra língua, no caso de haver um bom grupo de estrangeiros. O importante é que eles se sintam acolhidos como irmãos em comunhão na Eucaristia.
3. ECO AO EVANGELHO.
A paz na construção do Reino de Deus… Seria bom “noticiar”, nos avisos finais, algumas acções concretas que acontecem no nosso mundo, no nosso país, no lugar onde estamos… a favor da paz e da construção do reino de Deus. Se possível, alguma acção onde os cristãos se possam envolver directamente…
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
“Deus fiel, que velas o teu Povo como uma mãe o seu filho, nós Te damos graças pelas consolações que Tu lhe anunciaste outrora, quando estava desanimado e desorientado.
Confiamos-Te a nossa solidariedade para com os exilados e as vítimas das catástrofes, das guerras e das violências, para com todos aqueles que são expulsos das suas casas”.
No final da segunda leitura:
“Pai, nós Te damos graças pela cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Era um instrumento de morte, mas tornou-se para nós e para o mundo inteiro a origem de uma nova criação e de um novo Israel de Deus.
Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos que trazem no seu corpo a marca dos sofrimentos. Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre com o nosso espírito”.
No final do Evangelho:
“Mestre da seara, bendito sejas pelo teu Filho Jesus, pelos setenta e dois discípulos e todos os missionários que nos revelaram a presença do teu Reino. Nós Te bendizemos, porque os nossos nomes estão inscritos nos céus.
Mestre da seara, nós Te pedimos: que o teu reino venha, haja paz nas nossas casas! Envia operários para a tua seara”.
5. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus envia os seus discípulos dois a dois, porque está consciente daquilo que lhes é confiado: uma mensagem difícil de proclamar, nem sempre bem recebida. Ele sugere-lhes para rezar para que sejam numerosos no campo da seara; se há trabalho, são precisos trabalhadores. Previne-os: a sua fragilidade encontrará forças hostis. Devem pregar o Reino de Deus, mas Satanás espera-os e procurará impedir o estabelecimento deste mundo melhor. Jesus pede-lhes para estarem completamente despojados de dinheiro, de saco, de sandálias, de congratulações, para estarem apenas preocupados com o crescimento do Reino que se reconhece no dom da Paz e com o levantar dos homens e mulheres que a doença impede de estar de pé. Os discípulos podem, então, pôr-se a caminho. Estão prevenidos, Jesus não os deixa na ilusão. É respeitando este contracto que encontrarão a felicidade, a alegria completa.
6. À ESCUTA DA PALAVRA.
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara». É nesta palavra que se baseia a “oração pelas vocações”, em particular pelas vocações ao ministério presbiteral. Jesus dirige-se, primeiramente, a 72 discípulos que designou para além dos Doze Apóstolos. Os nomes têm muitas vezes um sentido simbólico. A tradução grega do Génesis (capítulo 10) dá uma lista de todas as nações que povoam a terra: 72! Podemos, assim, compreender que Jesus envia os discípulos a todas as nações. A missão de anunciar o Evangelho não está reservada apenas ao grupo dos Doze, é confiada, finalmente, a todos os discípulos, para irem até aos confins da terra. É toda a Igreja que é constituída missionária e missionada! Rezar pelas “vocações” é pedir a Deus para fazer de cada baptizado um testemunho da Boa Nova da salvação dada em Jesus. E se os trabalhadores são poucos, é talvez porque os baptizados não estão ainda suficientemente conscientes da sua missão. Em Igreja, normalmente não deveria haver cristãos que se contentam em ser “consumadores espirituais”. Todos são chamados a ser “pedras vivas”. Além disso, a seara não pertence aos ceifeiros. É a seara do mestre, que envia trabalhadores para a “sua seara”. Não se trata de um mero detalhe! É Deus que, em Jesus, semeou a boa semente. Este grão, de seguida, cresceu sozinho, até ao tempo da ceifa. Os trabalhadores vêm recolher o fruto de um trabalho que os precedeu. Os ceifeiros nunca devem esquecer que um Outro está em acção há muito tempo no coração dos homens para neles semear o grão do seu amor. Todo o ministério na Igreja está apenas ao serviço do Espírito Santo, já presente no segredo de cada ser humano. Então, compreendemos melhor o porquê de estes servos não deverem agir como se o êxito do seu ministério dependesse exclusivamente dos seus esforços!
7. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Oração Eucarística I. É longa, mas é uma oportunidade para fazer memória dos santos que deram a sua vida pelo Reino. Depois dos nomes de Matias e Barnabé, pode-se acrescentar: “de todos os discípulos que o Senhor enviou a trabalhar na sua seara e de todos os santos…”
8. PALAVRA PARA O CAMINHO…
“Ide! Envio-vos!” Julho/Agosto: multidões deslocam-se para lugares turísticos. Para uns, tempo de distância da prática religiosa. Para outros, ocasião para recuperar energias na fé. “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Ide! Envio-vos!” Como os setenta e dois discípulos, eis-nos enviados àqueles que encontraremos neste verão. Com quem iremos “perder tempo” para falar desta espantosa notícia: “Está perto de vós o reino de Deus”? E porque não ocuparmos as férias (ou em parte delas) numa acção de voluntariado, no nosso país ou em país de missão?!

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.org



O demônio foi expulso por Jesus-Dehonianos

05/07/2016
Tempo Comum - Anos Pares
XIV Semana - Terça-feira
Lectio
Primeira leitura: Oseias 8, 4-7. 11-13
Eis o que diz o Senhor: «Elegeram reis sem minha aprovação, estabeleceram chefes sem o meu conhecimento. Da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para sua própria perdição. 5Rejeito o teu bezerro, ó Samaria! A minha cólera inflamou-se contra eles. Até quando serão incapazes de purificar-se? 6Porque ele é de Israel; foi um artista quem o fez, não é Deus. Será, pois, despedaçado o bezerro da Samaria. 7Semearam ventos, colherão tempestades. Não terão espigas, e o grão não dará farinha; e mesmo que a desse, seria comida pelos estrangeiros. 11Efraim multiplicou os altares, e os seus altares só lhe serviram para pecar. 12Tinha-lhes escrito todos os preceitos da minha lei, mas ela foi tida por eles como uma lei estrangeira. 13Imolam e oferecem vítimas e comem-lhes as carnes, mas o Senhor não as aceita. Antes se lembrará da sua iniquidade e castigará os seus pecados. Voltarão para o Egipto».
Oseias proclama o amor de Deus, sempre fiel e rico em misericórdia. Mas também manifesta que Deus desaprova o comportamento corrupto de Israel, que não pode ficar sem castigo. Deus não é caprichoso. Mas é justo.
À morte de Jereboão II, seguiram-se tempos de egoísmos desenfreados e de religião insincera. Em vista de interesses mesquinhos, elegeram-se reis não designados por Deus. O culto, cada vez mais exterior, corrompeu-se ao ponto de erguer um bezerro de ouro em Samaria. Inicialmente, pretendia-se que fosse apenas expressão da presença invisível de Javé no meio do seu povo. Mas rapidamente descambou para a idolatria. Oseias acusa o povo de ter violado a Aliança e de ter transgredido a Lei. O castigo está iminente: «Semearam ventos, colherão tempestades» (v. 7). A reflexão de Oseias, em estilo proverbial, é uma alusão aos cultos cananeus das estações do ano. Embora se espere o contrário, esses cultos só trarão ruína: tempestades, secas, searas sem espigas. Israel escusa de invocar os seus numerosos altares, a solenidade das suas luas-novas. Tudo isso só lhe multiplica os pecados, por causa do baalismo latente, e porque a vida não está em sintonia com o culto. A aliança nupcial (berith) entre Deus e o seu povo inclui condições precisas expressas na Lei. Um culto, que não inclua o respeito pela Lei, é falso e há-de conduzir ao novo Egipto, isto é, ao exílio em Babilónia.

Evangelho: Mateus 9, 32-38
Naquele tempo, apresentaram-lhe um mudo, possesso do demónio. 33Depois que o demónio foi expulso, o mudo falou; e a multidão, admirada, dizia: «Nunca se viu tal coisa em Israel.» 34Os fariseus, porém, diziam: «É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios.» 35Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. 36Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. 37Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.»
Ao narrar a cura de um mudo, e ao referir a reacção dos adversários de Jesus, Mateus antecipa a luta renhida que o Senhor irá travar com os seus inimigos, e que será amplamente abordada no capítulo 12, a fim de preparar, para ela, os seus leitores. Além desta razão pedagógica, Mateus tem uma razão teológica. Fora anunciado que o Messias, entre outros prodígios, faria ouvir os surdos e falar os mudos, situações atribuídas ao demónio, inimigo do homem. Se Jesus realiza tais maravilhas, libertadoras da escravidão e limitações humanas, quebra o poder de Satanás, e só pode ser o Messias. O povo, mais propenso a reconhecer as maravilhas de Deus, reage com admiração. Os fariseus atribuem tais maravilhas ao poder satânico, que, segundo eles, actua por meio de Jesus. 
Mateus, logo a seguir, introduz o tema da missão, apresentando a itinerância de Jesus. Ele não permanece num determinado lugar, à espera dos discípulos, como faziam os rabis, mas percorre a Galileia, e vai até à terra dos gentios, proclamando o evangelho e curando todas as doenças (cf. v. 35). Há, em tudo isto, um ar de universalidade.
O centro do nosso texto é aquele em que o evangelista capta o coração de Cristo que se enche de compaixão pela multidão cansada e abatida, «como ovelhas sem pastor» (v. 36). Para compreender bem este «encher-se de compaixão», convém saber que essa expressão traduz o verbo grego splanknízomai reservado à expressão dos sentimentos de Jesus e do Pai. Esse verbo expressa o amor materno de Jesus para connosco. O nosso sofrimento toca-o até ao ponto de o fazer com-padecer-se, com-sofrer connosco, de carregar sobre si as nossas dores, no seu mistério de morte e ressurreição.
Jesus convida os discípulos a rezar ao Pai para que suscite pessoas dispostas a segui-Lo na tarefa da evangelização, semelhante ao trabalho da ceifa, pela sua urgência.

Meditatio
Oseias verbera um culto formal, que não estava em sintonia com a Aliança de Deus com o seu povo, nem tinha correspondência na vida. Não será também essa, muitas vezes, a nossa forma de culto? Talvez por isso é que, tantas vezes, sentimos a aridez invadir-nos o coração e a vida. Não vivemos centrados e unificados em Deus.
É fácil pagar o tributo de práticas religiosas, vividas como hábitos rotineiros, sem correspondência na vida de cada dia. Mas podem tornar-se idolatria! «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mc 7, 6). É fácil «multiplicar altares», que acabam povoados de ídolos, para nossa perdição! (Os 8, 4). Todas as crises de fé, e até de identidade, nascem da separação entre religiosidade e vida. Mas, como evitar um tal perigo?
Não é o voluntarismo que nos salva. O nosso compromisso, o nosso método e o nosso itinerário espiritual, podem ajudar. Mas só Senhor, que tem compaixão das nossas situações mais ou menos escabrosas e difíceis, da nossa sede d´Ele, pode valer-nos. É pois absolutamente necessário contactar, na fé, com o amor paterno e materno de Deus, que Jesus manifestou ao «encher-se de compaixão» pela multidão, que andava como ovelhas sem pastor. É preciso que o nosso coração seja tocado pelos «entranhas de misericórdia do nosso Deus».
A nossa vida, para ser verdadeiro caminho espiritual, há-de mover-se a partir de uma Palavra revelada, fulcro luminoso do nosso crer, esperar e amar: «É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10). Se assim for, então, mesmo nas tentações, quando formos perturbados pela corrida do activismo ou pelo fascínio dos aplausos, quando a desilusão do fracasso nos abater, seremos apoiados pela força de Deus-Amor, de Jesus-Presença na nossa vida.
O Senhor procura colaboradores para, como Ele, se encherem de compaixão e usarem de misericórdia para com as multidões, que povoam o nosso mundo: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos» (Mt 9, 37). Como cristãos, e como dehonianos, somos sensíveis às palavras de Jesus, e queremos cooperar com Ele na obra da redenção do mundo. A evangelização pode e deve tornar-se um verdadeiro culto, agradável a Deus. Na carta aos Romanos, Paulo fala do seu ministério apostólico, usando o vocabulário cultual e sacrificial do Antigo Testamento: oferecer os pagãos em «oblação agradável, santificada pelo Espírito», como sacrifício espiritual a Deus (cf. TOB, nota c a Rm 15, 16). A exemplo do Apóstolo, o missionário deve viver o seu «serviço do Evangelho» como uma liturgia, de que ele é o celebrante: “Ser um ministro (liturgo) de Jesus Cristo entre os pagãos, exercendo o ofício sagrado do Evangelho de Deus, a fim de que os pagãos se tornem uma oblação agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15, 16).
O apostolado missionário inclui-se na dimensão eclesial e social da nossa «oblação reparadora», que deve ser preparada pela oblação pessoal, conforme recomenda Paulo: «Exorto-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos (vós mesmos) como hóstia viva, santa e agradável a Deus: tal é o culto espiritual que lhe deveis prestar" (Rm 12, 1). Visto nesta “perspectiva espiritual” (Cst 26), descobrimos uma convergência profunda entre o apostolado missionário e a nossa espiritualidade, como nota uma carta do Superior Geral, Pe. António Panteghini: «A nossa espiritualidade é particularmente apta para alimentar e sustentar o compromisso missionário: disponibilidade de coração e de vida, abandono e esperança, alegria em anunciar o amor de Deus em Cristo, testemunhar este amor na vivência do dom de si mesmo, no serviço aos afastados, aos pequenos, aos pobres, pobreza partilhada e acolhimento dos outros, na sua raça, na sua cultura, com as suas qualidades e defeitos, tudo isto em comunhão com o Coração de Cristo na Sua paixão pelo anúncio do Reino de Deus a todos os homens”.

Oratio
Senhor, a «messe» é, na verdade, imensa e os trabalhadores são poucos. Quantos biliões de homens esperam o anúncio do Evangelho, e quão poucos são os missionários! A maior parte dos nossos contemporâneos, provavelmente, não está consciente da necessidade de Te conhecer e amar. Mas, que é a sede de transcendência, de bondade, de certezas, senão sede de Ti? Só Tu és a água viva, que sacia a nossa sede!
Queremos, pois, juntar a nossa prece à tua compaixão, para rezarmos ao Pai: «Mandai, Senhor, trabalhadores para a vossa messe». Que muitos jovens ouçam o teu chamamento e lhe correspondam, abraçando o sacerdócio, a vida consagrada, a vida religiosa, a vida missionária, para responderem ao grito do mundo carecido de salvação. Que a sua vida e o seu trabalho sejam oblação, para que a humanidade e a criação inteira se tornem também oferenda santa e agradável ao teu nome. Amen.

Contemplatio
O bom Mestre, depois de receber o baptismo de João Baptista, e antes de se entregar à organização da sua Igreja, mergulhou numa profunda oração de quarenta dias no deserto. Queria acumular graças para os seus apóstolos e os seus discípulos.
Depois destes quarenta dias, começa a sua propaganda. Ganha primeiro João e André que ficam apaixonados por Ele e passam todo um dia a escutá-lo: Apud eum manserunt die illo (Jo 1, 35). – Depois das suas primeiras pregações, passa ainda uma noite em oração, depois no dia seguinte faz o seu grande apelo a Pedro, a André, a Tiago, a João: Sequere me, segui-me. «Passou a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos» (Lc 6, 12).
E antes de completar o colégio dos seus apóstolos e dos seus discípulos, rezou ainda e mandou rezar. Percorreu a Galileia. Viu as multidões miseráveis e mal conduzidas pelos rabinos e pelos fariseus. «São ovelhas sem pastores, diz com emoção! Rezai, portanto, ao Mestre supremo para enviar trabalhadores para a sua vinha e pastores para o seu rebanho» (Mt 9, 38).
Quantas lições para nós! Estimemos de elevado valor a vocação; peçamos a Deus que multiplique os santos sacerdotes (Leão Dehon, OSP 4, p. 255).

Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Mandai, Senhor, trabalhadores para a vossa messe» (cf. Mt 9, 38).

| Fernando Fonseca, scj |


Minha filha acaba de morrer...-Dehonianos

04/07/2016
Tempo Comum - Anos Pares
XIV Semana - Segunda-feira
Lectio
Primeira leitura: Oseias 2. 16. 17b-18. 21-22
Eis o que diz o Senhor: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração. 17Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto». 18Naquele dia - oráculo do Senhor ela me chamará: «Meu marido» e nunca mais: «Meu Baal.» 21Então, te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com amor e misericórdia. 22Desposar-te-ei com fidelidade, e tu conhecerás o Senhor.
Oseias é o único profeta escritor do reino do Norte. Escreve no tempo de Jereboão III (713-743 a. C.), um período próspero para Israel, mas minado pela prostituição do povo a Baal e a Anat, deuses cananeus da sexualidade, da fecundidade e da vegetação. Embora contemporâneo de Amós e de Isaías, profetas originários de Judá, mas que também actuam em Israel, Oseias exerce o seu ministério de um modo próprio. Enquanto os dois profetas do Sul pregam, diríamos, do púlpito, Amós integra-se nas vivências dos seus ouvintes e, a partir delas, transformando os elementos, oferece-lhes um autêntico testemunho de vida, muito mais eloquente do que todos os sermões. Por isso, casa com uma das prostitutas cultuais, que ama extremosamente. Esta mulher dá-lhe dois filhos, cujos nomes são uma mensagem para Israel, mas atraiçoa-o voltando à prostituição num templo de Baal. De coração despedaçado, Oseias é introduzido no significado mais profundo daquele adultério: também Israel é adúltero na relação com Deus. Por mandato divino, o profeta retoma a esposa infiel para manifestar o drama de um Deus de tal modo fiel a Israel, que não hesita em atraí-lo novamente para si, para o renovar num encontro de profunda intimidade.

Evangelho: Mateus 9, 18-26
Naquele tempo, estava Jesus a falar aos seus discípulos, quando um chefe se prostrou diante dele e disse: «Minha filha acaba de morrer, mas vem impor-lhe a tua mão e viverá.» 19Jesus, levantando-se, seguiu-o com os discípulos. 20Então, uma mulher, que padecia de uma hemorragia há doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe na orla do manto, 21pois pensava consigo: ‘Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada.’ 22Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou.» E, naquele mesmo instante, a mulher ficou curada. 23Quando chegou a casa do chefe, vendo os flautistas e a multidão em grande alarido, disse: 24«Retirai-vos, porque a menina não está morta: dorme.» Mas riam-se dele. 25Retirada a multidão, Jesus entrou, tomou a mão da menina e ela ergueu-se. 26A notícia espalhou-se logo por toda aquela terra.
A ressurreição da filha de Jairo e a cura da mulher que sofria de um fluxo de sangue, dois episódios embutidos na página evangélica, que hoje escutamos, mostram-nos que Jesus tem poder sobre a morte, que é o vencedor da morte, que é a ressurreição e vida. Sendo o Messias, vem trazer o reino de Deus, onde a morte não tem a última palavra. O Reino de Deus é vida. A existência de Jesus é uma parábola em acção: caminha para a morte, para a vencer na ressurreição. A fé em Jesus faz passar da morte à vida.
Jairo chega a casa de Mateus, onde Jesus fala de núpcias, de pano novo e de vinho novo (cf. 9, 16s.). As palavras do «chefe» da sinagoga (cf. Mc 5, 35; Lc 8, 41) introduzem o lamento pela morte da filha de 12 anos, e a súplica a Jesus para que lhe dê novamente a vida. Jesus levanta-se e vai a caminho da casa da defunta, quando uma mulher, que sofria de hemorragias, lhe toca na borla do manto. A sua fé dizia-lhe que isso bastava para ser curada. Efectivamente, Jesus diz-lhe: «Filha, tem confiança, a tua fé te salvou» (v. 22). Se perder sangue significa risco de morte, a cura da mulher preludia a vitória da Vida, em casa de Jairo: «a menina não está morta: dorme» (v. 24). Jesus é o vencedor da morte. É a Vida. Acreditar n´Ele, dar-Lhe espaço em nós, acolher a sua pessoa, é acolher a Vida, porque Jesus que, por nós experimentou a morte, a tragou pela sua ressurreição (cf. 1 Cor 15, 55). Para o crente, a morte corporal é como um simples sono e, deixar-se «tocar» por Jesus, é certeza de ressurreição. A vida, como caminho para a plenitude das núpcias de amor eterno, confiando em Jesus, tem nesta página uma exemplar interpretação. Viver é caminhar na fé, tocar e deixar-se tocar por Cristo vivo na Palavra, na eucaristia e no próximo.

Meditatio
A fidelidade do Senhor é a nossa esperança. Também nós, como os israelitas, podemos deixar-nos seduzir pelos ídolos de morte denunciados por Oseias: o dinheiro, os bens materiais, o culto da imagem, o sexo, o hedonismo e mesmo o subtil domínio do egoísmo que, ainda quando fazemos o bem, nos leva a buscar-nos a nós próprios e aos nossos interesses, mais do que a glória de Deus e o seu Reino. E o nosso coração permanece profundamente insatisfeito e inquieto. É preciso escutá-lo quando grita o vazio que o preenche, e a desolação daquele adultério que consiste em esquecer a Deus no frenesim de um activismo exacerbado, no afã de se prostituir aos ídolos supramencionados. E é preciso deixar-se conduzir novamente, pelo Senhor, ao deserto. A meditação pode abrir-nos os olhos para a idolatria da vida comprometida com as lógicas deste mundo, verdadeiro insulto ao Senhor, mas também progressiva perda da vida, como acontecia com a mulher, antes de tocar na borla do manto de Jesus. Pouco a pouco, perde-se o gosto pela oração, a alegria de fazer o bem, a sensibilidade em fazer-nos próximos dos que precisam da nossa ajuda. Pouco a pouco, apaga-se a vida espiritual. E tornamo-nos mortos ambulantes, mesmo mergulhados no activismo e na aparência de fazer o bem.
Mas «o Senhor é clemente e cheio de compaixão», como canta o salmo responsorial. Há-de transformar «o vale de Acôr em porta de esperança» (Os 2, 17). Acôr fora o lugar do acto de infidelidade duramente punido por Deus. Mas, graças ao amor eterno do Senhor, tornara-se porta de entrada na terra santa. 
Quando o amor humano se perde, é muito difícil voltar ao tempo do namoro, ao tempo do encanto, quando se pensa que o dom recíproco jamais irá desaparecer. Mas, com Deus, não é assim. Jesus venceu a morte, e vence toda a morte. Tudo pode ser renovado, porque Deus é fiel e o seu amor é eterno: «vou seduzir-te… vou falar-te ao coração… vou desposar-te com fidelidade, e tu conhecerás o Senhor». Estas palavras vêm-nos à mente e ao coração, com mais intensidade, quando desconfiamos de nós mesmos e temos confiança n´Ele, no seu poder purificador, capaz de fazer reflorir o mais belo amor.
A vida cristã, e particularmente a vida religiosa dehoniana, exige momentos de recolhimento, de deserto, para nos renovarmos e crescermos na intimidade com o Senhor. É fundamental darmos espaço a Jesus na nossa vida, mesmo no meio das mais intensas actividades. É o tempo de oração comunitária e pessoal, é o tempo da meditação ou da lectio divina, é o tempo da adoração. São os brevíssimos momentos das jaculatórias, a que recorrem as almas fervorosas, porque ajudam a pessoa, o religioso, a não se deixar absorver a cem por cento pelas ocupações, pelo trabalho, pelo estudo, quando sessenta por cento são suficientes para cumprir com diligência o próprio dever. O espaço que sobra deve pertencer unicamente a Jesus. Então também o trabalho, o estudo, o descanso, serão de Jesus, serão permeados pela Sua presença, pelo Seu amor. Então seremos curados das nossas perdas de vida, como a mulher de que nos fala o evangelho, ou ressuscitados do torpor espiritual em que tivermos caído, pior que o «sono» da filha de Jairo.

Oratio
Senhor, quanto me reconheço idólatra e adúltero. Mas Tu falas-me ao coração, com grande amor. Quero escutar-te e voltar ao fervor da minha juventude, ao fervor do meu baptismo, da minha primeira profissão religiosa… Infunde em mim o teu Espírito, para que me deixe seduzir e levar ao deserto interior que, de lugar de horrível vazio e de morte, se torne lugar de intimidade nupcial Contigo. Aumenta a minha fé, a experiência de tocar-te e deixar-me tocar por Ti na oração, na eucaristia, no próximo carente dos meus cuidados. E aquela perda de forças, e aquela sensação de morte, que experimento quando me afasto de Ti, serão vencidas. Amen.

Contemplatio
O Coração de Jesus é a fonte da nossa vida sobrenatural. – Jesus comunica-nos a sua vida divina unindo-se a nós pela graça: «Eu sou a vida, diz, e vim para a espalhar nas almas» (Jo 10, 10). - «Eu vivo e vós viveis da minha própria vida» (Jo 4, 19). - «Quem tem o Filho de Deus em si, tem a vida» (Jo 5, 12).
É pelo seu Coração que Jesus nos comunica a sua vida divina. «Este Coração sagrado, diz o Padre Eudes, é o princípio da vida não só do Homem-Deus, mas da mãe e dos filhos de Deus. O Coração espiritual de Jesus, isto é, a sua alma santíssima, unido à sua divindade, é o princípio da sua vida espiritual e moral. É também o princípio da vida da Mãe de Deus. O Filho-Deus recebia de Maria a vida material e transmitia-lhe a vida espiritual e sobrenatural. O Coração de Jesus é também o princípio da vida sobrenatural de todos os filhos de Deus. Como é a vida da cabeça, é também a vida dos membros. Em Jesus, diz S. Tomás, está a plenitude da graça ou da vida das almas. Ela está depositada no seu Coração, como num reservatório universal, de onde ela corre para a humanidade a fim de a santificar». Nosso Senhor disse-nos isso várias vezes: «Se alguém me ama, o meu Pai amá-lo-á, e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). Jesus habita em nós pela sua graça, e o seu Coração une-se ao nosso coração para aí se tornar o princípio vivo da vida espiritual e divina em nós. (Leão Dehon, OSP 3, p. 508).
Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra
«Tem confiança, a tua fé te salvou» (Mt 9, 22).

| Fernando Fonseca, scj |