15 Janeiro 2017
ANO A
2º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 2º Domingo do
Tempo Comum
A liturgia deste
domingo coloca a questão da vocação; e convida-nos a situá-la no contexto do
projecto de Deus para os homens e para o mundo. Deus tem um projecto de vida
plena para oferecer aos homens; e elege pessoas para serem testemunhas desse
projecto na história e no tempo.
A primeira leitura apresenta-nos uma personagem misteriosa – Servo de Jahwéh –
a quem Deus elegeu desde o seio materno, para que fosse um sinal no mundo e
levasse aos povos de toda a terra a Boa Nova do projecto libertador de Deus.
A segunda leitura apresenta-nos um “chamado” (Paulo) a recordar aos cristãos da
cidade grega de Corinto que todos eles são “chamados à santidade” – isto é, são
chamados por Deus a viver realmente comprometidos com os valores do Reino.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo”. Ele é o Deus que veio ao nosso encontro, investido de uma missão pelo
Pai; e essa missão consiste em libertar os homens do “pecado” que oprime e não
deixa ter acesso à vida plena.
LEITURA I – Is
49,3.5-6
Leitura do Livro de
Isaías
Disse-me o Senhor:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti a luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
AMBIENTE
O Deutero-Isaías (o
autor do texto que nos é hoje proposto e que mais uma vez nos aparece como
veículo da Palavra de Deus) é um profeta da época do exílio, que desenvolveu o
seu ministério na Babilónia, entre os exilados (como, aliás, já dissemos no
passado domingo). A sua mensagem – de consolação e de esperança – aparece nos
capítulos 40-55 do Livro de Isaías.
Contudo, há nesses capítulos quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11;
52,13-53,12) que se distinguem – quer em termos literários, quer em termos
temáticos – do resto da mensagem… São os quatro cânticos do Servo de Jahwéh.
Apresentam um misterioso servo de Deus, a quem Jahwéh confiou uma missão. A
missão do Servo cumpre-se no sofrimento e no meio das perseguições; mas do
sofrimento do Servo resultará a redenção para o Povo. No fim, o Servo será
recompensado por Jahwéh e será exaltado.
A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do Servo de
Jahwéh. Aqui, esse Servo é explicitamente identificado com Israel (embora
alguns autores suponham que a determinação “Israel” não é original no texto e
que foi aqui acrescentada como uma interpretação): seria a figura do Povo de
Deus, chamado a ser testemunha de Jahwéh no meio dos outros povos.
MENSAGEM
O nosso texto
apresenta-se como uma declaração solene do Servo (Israel) “às ilhas” e “às
cidades longínquas” (vers. 1).
Na sua declaração, o Servo manifesta, em primeiro lugar, a consciência da
eleição: ele foi escolhido por Deus desde o seio materno (vers. 5a.b). A
expressão põe em relevo a origem de toda a vocação profética: é Deus que
escolhe, que chama, que envia. Referindo-se a Israel, a expressão faz alusão às
origens do Povo, à eleição e à aliança: Israel existe porque Deus o escolheu
entre todos os povos, revelou-lhe o seu rosto, constituiu-o como Povo, libertou-o
da escravidão, conduziu-o através do deserto e estabeleceu com ele uma relação
especial de comunhão e de aliança.
A eleição e a aliança pressupõem, contudo, a missão e o testemunho. A missão
deste Servo a quem Deus chamou é, em primeiro lugar, “reconduzir Jacob e reunir
Israel” a Jahwéh (vers. 5c.d). Aqui faz-se referência, provavelmente, ao
regresso do Povo à órbita da aliança (considerada rompida pelo pecado do Povo),
à reunião de todos os exilados e ao regresso à Terra Prometida.
A missão do Servo é, depois, ampliada “às nações” (vers. 6): Israel deve dar
testemunho da salvação de Deus, de forma a que a proposta salvadora e
libertadora chegue, por intermédio do Servo/Povo aos homens e mulheres de toda
a terra. Não deixa de impressionar a grandiosidade da missão confiada, em
contraste com a situação de opressão, de apagamento, de fragilidade em que
vivem os exilados… Aqui afirma-se o jeito de Deus, que age no mundo, salva e
liberta recorrendo a instrumentos frágeis e indignos.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão e
partilha, podem ser considerados os seguintes elementos:
• A leitura propõe à
nossa reflexão esse tema sempre pessoal, mas sempre enigmático que é a vocação.
Somos convidados, na sequência, a tomar consciência da vocação a que somos
chamados e das suas implicações. Não se trata de uma questão que apenas atinge
e empenha algumas pessoas especiais, com um lugar à parte na comunidade
eclesial (os padres, as freiras…); mas trata-se de um desafio que Deus faz a
cada um dos seus filhos, que a todos implica e que a todos empenha.
• A figura do Servo de
Jahwéh convida-nos, em primeiro lugar, a tomar consciência de que na origem da
vocação está Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada um uma
missão. A nossa vocação é sempre algo que tem origem em Deus e que só se
entende à luz de Deus. Temos consciência de que somos escolhidos por Deus desde
o seio materno, isto é, desde o primeiro instante da nossa existência? Temos
consciência de que é Deus que alimenta a nossa vocação e o nosso compromisso no
mundo? Temos consciência de que só a partir de Deus a nossa vocação faz sentido
e o nosso empenhamento se entende? Temos consciência de que a vocação implica
uma relação de comunhão, de intimidade, de proximidade com Deus?
• A vocação não se
esgota, contudo, na aproximação do homem a Deus, mas é sempre em ordem a um
testemunho e a uma intervenção no mundo (mesmo que se trate de uma vocação
contemplativa). O homem chamado por Deus é sempre um homem que testemunha e que
é um sinal vivo de Deus, dos seus valores e das suas propostas diante dos
outros homens. Sinto que a minha vocação se realiza no testemunho da salvação e
da libertação de Deus aos meus irmãos? A vocação a q
ue Deus me chama leva-me a ser uma luz de esperança no mundo? A salvação de
Deus atinge o mundo e torna-se uma realidade concreta no meu testemunho e no
meu ministério?
• Ao reflectirmos na
lógica da vocação, é preciso estarmos cientes de que toda a vocação tem origem
em Deus, é alimentada por Deus, e de que Deus se serve, muitas vezes, da nossa
fragilidade, caducidade e indignidade para actuar no mundo. Aquilo que fazemos
de bom e de bonito não resulta, portanto, das nossas forças ou das nossas
qualidades, mas de Deus. O coração do profeta não tem, portanto, qualquer razão
para se encher de orgulho, de vaidade e de auto-suficiência: convém ter
consciência de que por detrás de tudo está Deus, e que só Deus é capaz de
transformar o mundo, a partir dos nossos pobres gestos e das nossas frágeis
forças.
SALMO RESPONSORIAL –
Salmo 39(40)
Refrão: Eu venho,
Senhor, para fazer a vossa vontade.
Esperei no senhor com
toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.
Não Vos agradaram
sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».
«De mim está escrito
no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».
Proclamei a justiça na
grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.
LEITURA II – 1 Cor
1,1-3
Início da primeira
Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Paulo, por vontade de Deus
escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus
e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto,
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados à santidade,
com todos os que invocam, em qualquer lugar,
o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco.
AMBIENTE
Nos próximos seis
domingos, a liturgia vai propor-nos a leitura da primeira carta de Paulo aos
cristãos da comunidade de Corinto. Para entendermos cabalmente a mensagem,
convém determo-nos um pouco sobre o ambiente em que o texto nos situa.
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de
atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De
acordo com Act 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila,
um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a
chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; Act 18,5), Paulo
consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Mas não tardou a entrar em
conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga.
Corinto era uma cidade nova e muito próspera. Servida por dois portos de mar,
possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as
raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os
marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de
navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das
quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava
com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A
maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de
condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia
elementos de origem hebraica (cf. Act 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava
exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor
6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da
sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um
superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes
em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé
cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um
conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem
evangélica.
MENSAGEM
Paulo começa esta
carta com a saudação e a acção de graças, típicas das cartas paulinas. Na
saudação, carregada de conteúdo teológico, Paulo reivindica a sua condição de
escolhido por Deus (de apóstolo), sugerindo que está revestido de autoridade
para proclamar com plena garantia o Evangelho. Esta reivindicação sugere que,
no contexto coríntio, havia quem punha em causa a sua autoridade apostólica e o
seu testemunho. Os destinatários da carta são, evidentemente, os membros da
comunidade cristã de Corinto; no entanto, a mensagem serve para os cristãos de
todas as épocas e de todas as latitudes.
Neste parágrafo inicial, o vocábulo chamado assume um lugar especial: Paulo foi
chamado por Deus a ser apóstolo e os coríntios são uma comunidade de chamados à
santidade. Transparece aqui, como na primeira leitura, a convicção de que Deus
tem um projecto para os homens e para o mundo e que todos – quer Paulo, quer os
cristãos de Corinto, são chamados a um compromisso efectivo com esse projecto.
O que é que significa ser chamado à santidade? No contexto paulino, os santos
são todos aqueles que acolheram a proposta libertadora de Jesus e aceitaram os
valores do Evangelho. Os “santos” são os “separados”: os coríntios são “santos”
porque, ao aceitar a proposta de Jesus, escolheram viver “separados” do mundo.
“Separados” não significa “alheados”; mas significa viver de acordo com valores
e esquemas diferentes dos valores e esquemas consagrados pelo mundo.
A palavra “klêtos” (“chamado”), aqui usada, supõe Deus como sujeito: foi Deus
que chamou Paulo; é Deus que chama os coríntios. Mais uma vez fica claro que o
chamamento provém da iniciativa divina e que só se compreende a partir de Deus
e à luz da acção de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir
dos seguintes dados:
• Deus chama os homens
e as mulheres à santidade. Tenho consciência do apelo que Deus, nesta linha, me
faz também a mim? Estou disponível e bem disposto para aceitar esse desafio?
• Realizar a vocação à
santidade não implica seguir caminhos impossíveis de ascese, de privação, de
sacrifício; mas significa, sobretudo, acolher a proposta libertadora que Deus
oferece em Jesus e viver d
e acordo com os valores do Reino. É dessa forma que concretizo a minha vocação
à santidade? Tenho a coragem de viver e de testemunhar, com radicalidade, os
valores do Evangelho, mesmo quando a moda, o orgulho, a preguiça, os interesses
financeiros, o “politicamente correcto”, a opinião dominante me impõem outras
perspectivas?
• Convém ter sempre
presente que a Igreja, a comunidade dos “chamados à santidade”, é constituída
por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus
Cristo”. É importante termos consciência de que, para além da cor da pele, das
diferenças sociais, das distâncias sociais ou culturais, das perspectivas
diferentes sobre as questões secundárias da vivência da religião, o essencial é
aquilo que nos une e nos faz irmãos: Jesus Cristo e o reconhecimento de que Ele
é o Senhor que nos conduz pela história e nos oferece a salvação.
ALELUIA – Jo 1,14a.12a
Aleluia. Aleluia.
O Verbo fez-Se carne e
habitou entre nós.
Àqueles que O receberam
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
EVANGELHO – Jo 1,29-34
Evangelho de Nosso
Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim baptizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a baptizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que baptiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
AMBIENTE
A perícopa que nos é
proposta integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36).
Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”
João dispõe as peças num enquadramento cénico. As diversas personagens que vão
entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os actores chamados ao
palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre
Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus
como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos
homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista, o profeta/percursor do Messias, desempenha aqui um papel
especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim
da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e
apresentá-lo aos homens. Ao não assinalar-se o auditório, sugere-se que o
testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco
permanente na comunidade cristã.
MENSAGEM
João é, portanto, o
apresentador oficial de Jesus. De que forma e em que termos o vai apresentar?
A catequese sobre Jesus que aqui é feita expressa-se através de duas afirmações
com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado
do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.
A primeira afirmação (“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” – Jo
1,29) evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais extremamente sugestivas.
Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o
matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação (cf. Is
52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da
acção libertadora de Deus em favor de Israel (cf. Ex 12,1-28). Qualquer uma
destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação dos
homens.
A ideia é, aliás, explicitada pela definição da missão de Jesus: Ele veio para
tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no
singular: não designa os “pecados” dos homens, mas um “pecado” único que oprime
a humanidade inteira; esse “pecado” parece ter a ver, no contexto da catequese
joânica, com a recusa da proposta de vida com que Deus, desde sempre, quis
presentear a humanidade (é dessa recusa que resulta o pecado histórico, que
desfeia o mundo e que oprime os homens). O “mundo” designa, neste contexto, a
humanidade que resiste à salvação, reduzida à escravidão e que recusa a
luz/vida que Jesus lhe pretende oferecer… Deus propôs-se tirar a humanidade da situação
de escravidão em que esta se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de
realizar um novo êxodo, que leve os homens da terra da escravidão para a terra
da liberdade.
A segunda afirmação (o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito Santo
e que baptiza no Espírito – cf. Jo 1,32-34) completa a anterior. Há aqui vários
elementos bem sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a
plenitude do Espírito; e tem por missão baptizar os homens no Espírito.
Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa,
que vem ao encontro dos homens, que monta a sua tenda no meio dos homens, a fim
de lhes oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar
“o pecado” que torna o homem escravo e que o impede de abrir o coração a Deus.
Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus
possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o
seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura
messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”). O quadro leva-nos aos textos do
Deutero-Isaías, onde o “Servo” aparece como o eleito de Jahwéh, sobre quem Deus
derramou o seu Espírito (cf. Is 42,1), a quem ungiu e a quem enviou para
“anunciar a Boa Nova aos pobres, para curar os corações destroçados, para
proclamar a libertação aos cativos, para anunciar aos prisioneiros a liberdade”
(Is 61,1-2).
Jesus é, finalmente, aquele que baptiza no Espírito Santo. O verbo “baptizar”
aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “empapar (como a
chuva empapa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contacto total entre
a água e o sujeito. “Baptizar no Espírito” significa, portanto, um contacto
total entre o Espírito e o homem, uma chuva de Espírito que cai sobre o homem e
lhe empapa o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o
Espírito sobre o
homem; e o homem que adere a Jesus, “empapado” do Espírito e transformado por
essa fonte de vida que é o Espírito, abandona a experiência da escuridão (“o
pecado”) e alcança o seu pleno desenvolvimento, a plenitude da vida.
A declaração de João convida os homens de todas as épocas a voltarem-se para
Jesus e a acolherem a proposta libertadora que, em nome de Deus, Ele faz: só a
partir do encontro com Jesus será possível chegar à vida plena, à meta final do
Homem Novo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pessoal e
comunitária pode tocar os seguintes pontos:
• Em primeiro lugar,
importa termos consciência de que Deus tem um projecto de salvação para o mundo
e para os homens. A história humana não é, portanto, uma história de fracasso,
de caminhada sem sentido para um beco sem saída; mas é uma história onde é
preciso ver Deus a conduzir o homem pela mão e a apontar-lhe, em cada curva do
caminho, a realidade feliz do novo céu e da nova terra. É verdade que, em
certos momentos da história, parecem erguer-se muros intransponíveis que nos
impedem de contemplar com esperança os horizontes finais da caminhada humana;
mas a consciência da presença salvadora e amorosa de Deus na história deve
animar-nos, dar-nos confiança e acender nos nossos olhos e no nosso coração a
certeza da vida plena e da vitória final de Deus.
• Jesus não foi mais
um “homem bom”, que coloriu a história com o sonho ingénuo de um mundo melhor e
desapareceu do nosso horizonte (como os líderes do Maio de 68 ou os fazedores
de revoluções políticas que a história absorveu e digeriu); mas Jesus é o Deus
que Se fez pessoa, que assumiu a nossa humanidade, que trouxe até nós uma
proposta objectiva e válida de salvação e que hoje continua presente e activo
na nossa caminhada, concretizando o plano libertador do Pai e oferecendo-nos a
vida plena e definitiva. Ele é, agora e sempre, a verdadeira fonte da vida e da
liberdade. Onde é que eu mato a minha sede de liberdade e de vida plena: em
Jesus e no projecto do Reino ou em pseudo-messias e miragens ilusórias de
felicidade que só me afastam do essencial?
• O Pai investiu Jesus
de uma missão: eliminar o pecado do mundo. No entanto, o “pecado” continua a enegrecer
o nosso horizonte diário, traduzido em guerras, vinganças, terrorismo,
exploração, egoísmo, corrupção, injustiça… Jesus falhou? É o nosso testemunho
que está a falhar? Deus propõe ao homem o seu projecto de salvação, mas não
impõe nada e respeita absolutamente a liberdade das nossas opções. Ora, muitas
vezes, os homens pretendem descobrir a felicidade em caminhos onde ela não
está. De resto, é preciso termos consciência de que a nossa humanidade implica
um quadro de fragilidade e de limitação e que, portanto, o pecado vai fazer
sempre parte da nossa experiência histórica. A libertação plena e definitiva do
“pecado” acontecerá só nesse novo céu e nova terra que nos espera para além da
nossa caminhada terrena.
• Isso não significa,
no entanto, pactuar com o pecado, ou assumir uma atitude passiva diante do
pecado. A nossa missão – na sequência da de Jesus – consiste em lutar
objectivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e
instalado em cada degrau da nossa vida colectiva. A missão dos seguidores de
Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que
impede a sua concretização na história.
ALGUMAS SUGESTÕES
PRÁTICAS PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO
LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 2º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. DAR ATENÇÃO ÀS
PROCISSÕES.
Ao longo dos domingos que precedem o tempo da Quaresma, pode-se dar uma atenção
particular ao desenrolar das procissões na missa. Por exemplo, a procissão de
entrada, que não é apenas para o presidente da assembleia acompanhado de um ou
outro acólito… Podem entrar nesta procissão: um leigo com a cruz, os acólitos
ou leigos que vão servir ao altar (podem levar cada um uma vela), os que vão
fazer a primeira e a segunda leitura (um deles leva o leccionário), assim como
o leitor da oração dos fiéis. Para acolher a procissão, enquanto se canta, a
assembleia dirige o olhar para o fundo da igreja e acompanha com o olhar o
movimento da procissão. Chegados ao altar, depois da inclinação ou genuflexão,
colocam o livro e as velas, tomando os seus lugares. A celebração continua…
3. ORAÇÃO NA LECTIO
DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento
das leituras com a oração.
No final da primeira
leitura:
Deus, Pai do teu povo, nós Te bendizemos pelo envio de salvadores, os profetas,
os juízes e os reis, mas sobretudo pelo envio do teu Filho, o teu eleito, em
quem puseste toda a tua alegria, e que Se manifestou como a luz das nações.
Nós Te confiamos as vítimas das inumeráveis angústias da nossa terra, todos os
infelizes que aspiram a reencontrar a luz, a liberdade e a paz.
No final da segunda
leitura:
Cristo Jesus, Tu que és o Senhor de todos e que revestiste a nossa condição
humana, Tu que o Pai revelou como o Messias e encheu com a sua força, nós Te
damos graças pela tua obra de salvação.
Nós Te confiamos os nossos irmãos e irmãs que procuram a luz e a verdade, como
fazia outrora o centurião Cornélio. Dá-nos a coragem de ir ao seu encontro,
como outrora o apóstolo Pedro.
No final do Evangelho:
Pai de Jesus e nosso Pai, nós Te damos graças pelo baptismo de Jesus no Jordão,
porque nele nos revelaste a nova humanidade, da qual Jesus é a cabeça. Faz de
nós também teus filhos bem-amados e cumula-nos com o teu Espírito.
Nós Te pedimos pelos novos baptizados, pelos padrinhos e madrinhas, pelos pais
e pelas equipas que asseguram a preparação para o baptismo.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas da Reconciliação.
5. PALAVRA PARA O
CAMINHO.
Testemunho… A palavra “Servidor” regressa hoje em força, em Isaías, enquanto
João nos convida a contemplar o Cordeiro de Deus investido da Força do
Espírito, ao qual dá testemunho. E nós? O nosso testemunho ficará limitado a
estas palavras do Credo proclamado ao domingo? Ou leva-nos a empenharmo-nos em
acções concretas no seguimento do Servidor?
UNIDOS PELA PALAVRA DE
DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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