02/11/2015
Comemoração de
Todos os Fiéis Defuntos
Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
TERCEIRA MISSA
Tema da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
A liturgia da Comemoração dos Fiéis Defuntos convida-nos a descobrir que o
projecto de Deus para o homem é um projecto de vida. No horizonte final do
homem não está a morte, o fracasso, o nada, mas está a comunhão com Deus, a
realização plena do homem, a felicidade definitiva, a vida eterna.
No Evangelho, Jesus deixa claro que o objectivo final da sua missão é dar aos
homens o “pão” que conduz à vida eterna. Para aceder a essa vida, os discípulos
são convidados a “comer a carne” e a “beber o sangue” de Jesus – isto é, a
aderir à sua pessoa, a assimilar o seu projecto, a interiorizar a sua proposta.
A Eucaristia cristã (o “comer a carne” e beber o sangue” de Jesus) é, ao longo
da nossa caminhada pela terra, um momento privilegiado de encontro e de
compromisso com essa vida nova e definitiva que Jesus veio oferecer.
Na segunda leitura, Paulo garante aos cristãos de Tessalónica que Cristo virá
de novo, um dia, para concluir a história humana e para inaugurar a realidade
do mundo definitivo; todo aquele que tiver aderido a Jesus e se tiver
identificado com Ele irá ao encontro do Senhor e permanecerá com Ele para
sempre.
Na primeira leitura, Isaías anuncia e descreve o “banquete” que Deus, um dia,
vai oferecer a todos os Povos. Com imagens muito sugestivas, o profeta sugere
que o fim último da caminhada do homem é o “sentar-se à mesa” de Deus, o
partilhar a vida de Deus, o fazer parte da família de Deus. Dessa comunhão com
Deus resultará, para o homem, a felicidade total, a vida definitiva.
LEITURA I – Is 25,6a.7-9
Leitura do Livro de Isaías
Sobre este monte,
o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos
um banquete de manjares suculentos.
Sobre este monte,
há-de tirar o véu que cobria todos os povos,
o pano que envolvia todas as nações;
Ele destruirá a morte para sempre.
O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces
e fará desaparecer da terra inteira
o opróbrio que pesa sobre o seu povo.
Porque o Senhor falou.
Dir-se-á naquele dia:
«Eis o nosso Deus,
de quem esperávamos a salvação;
é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança.
Alegremo-nos e rejubilemos,
porque nos salvou.
AMBIENTE
É extremamente difícil situar, no tempo e no momento histórico, o texto que a
primeira leitura deste domingo nos apresenta.
Para uns, o oráculo pertence à fase final da vida do profeta Isaías (no final
do séc. VIII a.C.) quando, desiludido com a política e com os reis de Judá, o
profeta começou a sonhar com um tempo novo de felicidade e de paz sem fim para
o Povo de Deus.
Para outros, contudo, este texto não pertenceria ao primeiro Isaías (o autor
dos capítulos 1-39 do Livro de Isaías), apesar de aparecer integrado no seu
livro. Seria um texto de uma época posterior ao profeta… A referência à
superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia sugerir que a composição
deste texto se situaria num momento histórico posterior ao Exílio na Babilónia,
quando Judá já teria reconquistado a liberdade.
Em qualquer caso, o texto constrói-se à volta da imagem do “banquete”. O
“banquete” é, no ambiente sócio-cultural do mundo bíblico, o momento da
partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade de mesa, do
estabelecimento de laços familiares entre os convivas.
Para além de acontecimento social, o “banquete” tem também, frequentemente, uma
dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados” celebram e potenciam a comunhão do
crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. É
por isso que, na perspectiva dos catequistas que redigiram as tradições sobre a
Aliança do Sinai, o compromisso entre Jahwéh e Israel tinha de ser selado com
uma refeição entre Deus e os representantes do Povo (cf. Ex 24,1-2. 9-11).
Neste campo são, também, particularmente significativos os “sacrifícios de
comunhão” (“zebâh shelamim”) celebrados no Templo de Jerusalém. Neste tipo de
celebração religiosa, o crente trazia ao Templo um animal destinado a Deus.
Depois de imolado o animal, a sua gordura era queimada sobre o altar, ao passo
que a carne era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a sua
família deviam comer a sua parte no espaço sagrado do santuário. Dessa forma,
sentavam-se à mesa com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de
Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia, de comunhão (cf. Lv 3).
É este ambiente que o nosso texto supõe.
MENSAGEM
O profeta anuncia que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer “um
banquete”; e, para esse “banquete”, Jahwéh vai convidar “todos os povos”.
Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus no sentido de estabelecer laços
“de família” com a humanidade inteira.
O cenário do “banquete” é “este monte” (vers. 6) – evidentemente, o monte do
Templo, em Jerusalém, a “casa de Jahwéh”, o lugar onde Deus reside no meio do
seu Povo, o lugar onde Israel presta culto a Jahwéh e celebra os sacrifícios de
comunhão. Aceitar o convite de Deus para o “banquete” significará, portanto,
participar no culto a Jahwéh, ser acolhido na casa de Jahwéh, entrar no “espaço
íntimo” e familiar de Deus e sentar-se com ele à mesa.
Nesse “banquete” serão servidos “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”,
“vinhos deliciosos” e “puríssimos” (vers. 6). As expressões sublinham a
abundância de vida – e de vida com qualidade – com que Deus vai cumular os seus
convidados.
Para os que aceitarem o convite para o “banquete”, iniciar-se-á uma nova era,
de comunhão íntima com Deus e de vida sem fim. O profeta sugere a comunhão
total entre Deus e os homens que então se iniciará, com a indicação de que será
removido “o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações”
(vers. 7) e que impedia o contacto total com o mundo de Deus. Por outro lado, o
profeta sugere o início da nova era de paz e de felicidade sem fim, dizendo que
Deus vai destruir a morte para sempre, vai enxugar “as lágrimas de todas as
faces” e vai eliminar “o opróbrio que pesa sobre o seu Povo” (vers.8).
O “banquete” termina com um cântico de acção de graças que evoca,
provavelmente, uma fórmula usada na aclamação de um novo rei (vers. 9).
Significa que, com o “banquete” que o Messias vai oferecer, se iniciará o
reinado de Deus sobre toda a terra.
O profeta está, sem dúvida, a descrever os tempos messiânicos. Na perspectiva
do profeta, serão tempos de comunhão total de Deus com o homem e do homem com
Deus. Dessa intimidade entre Deus e o homem resultará, para o homem, a
felicidade total, a vida verdadeira e plena.
A partir daqui, a ideia de um “banquete messiânico” tornou-se corrente no
judaísmo.
ACTUALIZAÇÃO
• A imagem do “banquete” para o qual Deus convida “todos os povos” aponta para
essa realidade de comunhão, de festa, de amor, de felicidade que Deus
insistentemente nos oferece. Nunca será de mais recordar isto: Deus tem um
projecto de vida, que quer oferecer a todos os homens, sem excepção. Não somos
“filhos de um deus menor”, pobre humanidade abandonada à sua sorte, perdida num
universo hostil e condenada ao nada; somos pessoas a quem Deus ama, a quem Ele
convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a vida plena e
definitiva. A consciência desta realidade deve iluminar a nossa existência e
encher de serenidade, de esperança e de confiança a nossa caminhada nesta
terra. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não
são a última palavra da nossa existência; mas caminhamos todos ao encontro da
festa definitiva que Deus prepara para todos os que aceitam o seu dom.
• Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para ter acesso a essa festa de
vida eterna. Aceitar o convite de Deus significa renunciar ao egoísmo, ao
orgulho e à auto-suficiência e conduzir a existência de acordo com os valores
de Deus; aceitar o convite de Deus implica dar prioridade ao amor, testemunhar
os valores do Reino e construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de
solidariedade, de partilha, de amor. No dia do nosso baptismo, aceitamos o convite
de Deus e comprometemo-nos com Ele… A nossa vida tem sido coerente com essa
opção?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão 1: O Senhor é meu pastor:
nada me faltará.
Refrão 2: Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
nada temo, porque Vós estais comigo.
O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.
LEITURA II – 1 Tes 4,13-18
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância
a respeito dos defuntos,
para não vos contristardes como os outros,
que não têm esperança.
Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou,
do mesmo modo, Deus levará com Jesus
os que em Jesus tiverem morrido.
Eis o que temos para vos dizer,
segundo a palavra do Senhor:
Nós, os vivos,
os que ficarmos para a vinda do Senhor,
não precederemos os que tiverem morrido.
Ao sinal dado, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta divina,
o próprio Senhor descerá do Céu
e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.
Em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado,
seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens,
para irmos ao encontro do Senhor nos ares,
e assim estaremos sempre com o Senhor.
Consolai-vos uns aos outros com estas palavras.
AMBIENTE
De acordo com os “Actos dos Apóstolos”, Paulo não teve muito tempo para
evangelizar os tessalonicenses. Depois de poucas semanas de pregação, um motim
habilmente preparado pelos judeus da cidade obrigou-o a partir precipitadamente
de Tessalónica, deixando atrás de si uma comunidade cristã fervorosa e
entusiasta, mas insuficientemente preparada do ponto de vista catequético (cf.
Act 17,1-10). Paulo foi para Bereia, depois para Atenas e Corinto. De Corinto,
Paulo enviou Timóteo ao encontro dos tessalonicenses, para verificar como é que
a comunidade se estava a aguentar face à hostilidade dos judeus. No regresso a
Corinto, Timóteo deu conta a Paulo da situação da comunidade: os
tessalonicenses continuavam a viver com entusiasmo o seu compromisso cristão,
embora sentissem algumas dúvidas em questões de fé e de doutrina.
Um dos problemas teológicos que mais preocupava os tessalonicenses era a
questão da parusia (regresso de Jesus, no final dos tempos)… Paulo e as
primeiras gerações cristãs acreditavam que esse dia surgiria num espaço de
tempo muito curto e que assistiriam ao triunfo final de Jesus. A este propósito
os tessalonicenses punham, no entanto, um problema muito prático: qual será a
sorte dos cristãos que morrerem antes da segunda vinda de Cristo? Como poderão
sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com Ele no Reino de Deus se já
estão mortos?
É então que Paulo escreve aos tessalonicenses, encorajando-os na fé e
respondendo às suas dúvidas. Estamos no ano 50 ou 51. O texto que nos é
proposto é parte desse esclarecimento sobre a parusia que Paulo incluiu na
carta.
MENSAGEM
Antes de mais, Paulo confirma aquilo que, provavelmente, já antes havia
ensinado aos tessalonicenses: que Cristo virá para concluir a história humana;
e que todo aquele que tiver aderido a Cristo e se tiver identificado com Ele,
esteja morto ou esteja vivo, encontrará a salvação (vers. 14). Se Cristo
recebeu do Pai a vida que não acaba, quem se identifica com Cristo está
destinado a uma vida semelhante; a morte não tem poder sobre ele… Isto deve
encher de esperança o cristão, mantendo-o alegre, sereno e cheio de ânimo.
Como é que se concretizará isso? Como é que aqueles que já morreram assistirão
ao triunfo final de Cristo?
Paulo não é demasiado explícito, pois está consciente de que se trata de uma
realidade misteriosa, que foge à lógica e à linguagem humanas. De qualquer
forma, para descrever a passagem do homem velho para a realidade do homem novo
que vive para sempre junto de Deus, Paulo vai recorrer ao género literário
“apocalipse”, um género literário que utiliza preferentemente a imagem e o
símbolo (afinal, a linguagem mais adaptada para expressar uma realidade que nos
ultrapassa e que não conseguimos definir e explicar nos seus detalhes). O
quadro que Paulo traça é o seguinte: aqueles crentes que, entretanto, morreram
ressuscitarão primeiro (“à voz do arcanjo”, “ao som da trombeta de Deus” –
elementos típicos da escatologia judaica); depois, em companhia de “nós, os
vivos”, irão ao encontro do Senhor que vem na sua glória, e permanecerão com
Ele para sempre.
Em qualquer caso, o que está aqui em causa não é a definição do quadro
fotográfico da última vinda do Senhor… O que Paulo aqui pretende é tranquilizar
os tessalonicenses, assegurando-lhes que não haverá qualquer diferença ou
discriminação entre os que morreram antes da segunda vinda de Jesus e aqueles
que permanecerem vivos até esse instante: uns e outros encontrar-se-ão com o
Senhor Jesus, partilharão o seu triunfo e entrarão com Ele na glória.
ACTUALIZAÇÃO
• A certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um projecto de salvação e
de vida para cada homem; e que esse projecto está a realizar-se continuamente
em nós, até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente
com Deus.
• A nossa vida presente não é, pois, um drama absurdo, sem sentido e sem
finalidade; é uma caminhada tranquila, confiante – ainda quando feita no
sofrimento e na dor – em direcção a esse desabrochar pleno, a essa vida total
em que se revelará o Homem Novo.
• Isso não quer dizer que devamos ignorar as coisas boas deste mundo, vivendo
apenas à espera da recompensa futura, no céu; quer dizer que a nossa existência
deve ser – já neste mundo – uma busca da vida e da felicidade; isso implicará
uma não conformação com tudo aquilo que nos rouba a vida e que nos impede de alcançar
a felicidade plena, a perfeição última (a nós e a todos os homens nossos
irmãos).
• Não é possível viver com medo, depois desta descoberta: podemos
comprometer-nos na luta pela justiça e pela paz, com a certeza de que a
injustiça e a opressão não podem pôr fim à vida que nos anima; e é na medida em
que nos comprometemos com esse mundo novo e o construímos com gestos concretos,
que estamos a anunciar a ressurreição plena do mundo, dos homens e das coisas.
ALELUIA – Jo 6,51
Aleluia. Aleluia.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu;
Que comer deste pão viverá eternamente.
EVANGELHO – Jo 6,51-58
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a carne do Filho do homem
e não beberdes o seu sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha carne é verdadeira comida
e o meu sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em Mim e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou
e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que Me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram:
Quem comer deste pão viverá eternamente».
AMBIENTE
O trecho que nos é proposto neste domingo como Evangelho situa-nos na sinagoga
de Cafarnaum (cf. Jo 6,59) e no contexto do discurso sobre o “pão da vida”. Ao
longo desse discurso, Jesus afirmou repetidamente que era “o pão que desceu do
céu para dar vida ao mundo”; aqui, no entanto, vai ainda mais além: convida os
seus interlocutores a comer a sua carne e a beber o seu sangue.
As palavras de Jesus parecem conter uma referência clara à Eucaristia. Alguns
biblistas pensam que esta parte do discurso é uma reflexão da primitiva
comunidade cristã, que reintrepretou a primeira parte do discurso,
explicitando-a a partir da celebração eucarística posterior; outros pensam que
João reelaborou uma série de materiais que estariam, inicialmente, incluídos no
relato da última ceia e que foram deslocados para aqui por conveniências
teológicas (na sua versão da última ceia, João preferiu dar relevo à lavagem
dos pés; contudo, não quis a omitir o discurso eucarístico de Jesus, um dado
tão importante para a tradição cristã. Sendo assim, transladou-o para outro
lugar; e o lugar mais indicado para o situar pareceu-lhe ser, precisamente, na
continuação do discurso sobre o “pão descido do céu para dar vida ao mundo”).
Em qualquer caso, esta parte do discurso (cf. Jo 6,51-58) não deve ter sido
feita na sinagoga de Cafarnaum… Ela só faz sentido após a instituição da
Eucaristia, na última ceia.
O discurso sobre o “pão da vida” (cf. Jo 6,22-58) ficou, portanto, no esquema
de João, com o seguinte enquadramento lógico: os homens buscam o pão material;
Jesus traz-lhes o “pão do céu que dá vida ao mundo”; e o pão eucarístico
realiza, de forma plena, a missão de Jesus no sentido de dar vida ao homem.
MENSAGEM
Depois de se apresentar como “o pão vivo que desceu do céu” para dar aos homens
a vida definitiva (vers. 51a), Jesus identifica esse “pão” com a sua “carne”
(vers. 51b). A palavra “carne” (em grego: “sarx”) designa a realidade física do
homem, na sua condição débil, transitória e caduca. Ora, foi precisamente na
“carne” de Jesus – isto é, no seu corpo físico – que se manifestou, em gestos
concretos, a sua doação e o seu amor até ao extremo. Na realidade física de
Jesus, Deus tornou-Se presente e visível no meio dos homens, mostrou a sua
vontade de comunicar com os homens e manifestou-lhes o seu amor. É esta “carne”
(isto é, a sua vida física, o “lugar” onde Deus se manifesta aos homens e lhes
mostra o seu amor) que Jesus vai dar a “comer” para que o mundo tenha vida.
Os judeus não entendem as palavras de Jesus (vers. 51). Quando Jesus Se
apresentou como “pão vivo descido do céu para dar a vida ao mundo”, eles
entenderam que Jesus pretendia ser uma espécie de “mestre de sabedoria” que
trazia aos homens palavras de Deus (também isso, eles tinham dificuldade em aceitar;
mas, pelo menos, entendiam aonde Ele queria chegar)… Mas agora Jesus fala em
“comer” a sua carne. O que significam as suas palavras? São palavras difíceis
de entender, se não nos colocarmos numa perspectiva eucarística; e, por isso,
os judeus não as entendem… Para a comunidade de João, contudo, as palavras de
Jesus são claras, pois são entendidas tendo em conta a celebração e o
significado da Eucaristia.
Na sequência, Jesus reitera a sua afirmação, desta vez com mais
desenvolvimentos: Ele não só vai dar a comer a sua carne, mas também a beber o
seu sangue; e quem os aceitar, recebe vida definitiva (vers. 53-54). A
referência ao sangue coloca-nos no contexto da paixão e da morte. Dizer que
Jesus é carne significa que Ele Se tornou pessoa como nós, assumiu a nossa
condição de debilidade, aceitando passar, até, pela experiência da morte. Dizer
que o pão que Ele há-de dar é a sua “carne para a vida do mundo” significa que
Jesus fez da sua vida um dom, uma “entrega” por amor aos homens; e que o
momento mais alto dessa vida feita “dom” e “entrega” é a morte na cruz. Na
cruz, manifestou-se, através da “carne” de Jesus – isto é, através da sua
realidade física – o seu amor, o seu dom, a sua entrega… Ora, é essa realidade
que se manifestou na cruz – realidade de amor, de doação, de entrega – que os
discípulos são convidados a comer e a beber. Comer e beber significam, neste
contexto, “aderir”, “acolher”, interiorizar”, “assimilar”.
A questão é, portanto, esta: Jesus não está a falar da sua carne física e do
seu sangue físico… Está a pedir, simplesmente, que os seus discípulos acolham e
assimilem essa vida de amor, de dom, de entrega, que Ele mostrou na sua pessoa
(isto é, nos seus gestos, no seu amor, na sua doação aos homens) e que teve a
sua expressão mais radical na cruz, quando Jesus, por amor, ofereceu totalmente
a sua vida, até à última gota de sangue. Quem “acolher” e “assimilar” esta vida
e aceitar viver da mesma forma – no amor e no dom total da vida, até à morte –
terá vida plena e definitiva.
A Eucaristia actualiza esta realidade na comunidade cristã e na vida dos
crentes. Esse mesmo Jesus que amou até às últimas consequências, que pôs a sua
vida ao serviço dos homens, que Se deu na cruz, oferece-Se como alimento aos
seus. O discípulo que participa da Eucaristia, isto é, que “come” e que “bebe”
a “carne” e o “sangue” de Jesus, assimila esta proposta e compromete-se a viver
e a dar a vida como Ele (vers. 55).
Um dos efeitos de comer a carne e beber o sangue de Jesus é ficar em união
íntima, em comunhão de vida com Jesus. O discípulo que interioriza a proposta
de Jesus identifica-se com Ele e torna-se um com Ele (vers. 56). O cristão é,
antes de mais, alguém que recebe vida de Jesus e vive em união com Ele.
Outro efeito de comer a carne e beber o sangue de Jesus é comprometer-se com o
mesmo projecto de Jesus. Jesus Cristo foi enviado pelo Pai ao mundo para dar
vida ao mundo e o seu plano consiste em concretizar esse projecto; o cristão
assimila esse mesmo projecto e dedica toda a sua existência a concretizá-lo no
meio dos homens (vers. 57).
É neste caminho que se chega a essa vida plena e definitiva que Jesus veio
propor aos homens. Do comer a carne e beber o sangue de Jesus nascerá uma nova
humanidade de gente livre, que venceu a morte e que vive para sempre (vers.
58).
O discurso que João põe na boca de Jesus não se dirige aos judeus (pois os
judeus não eram capazes de entender as palavras de Jesus), mas dirige-se aos
discípulos. O seu objectivo é explicar o programa de Jesus, pedir aos
discípulos que assimilem esse programa e o testemunhem no meio dos homens. A
Eucaristia cristã (comer a carne e beber o sangue) é, assim, uma forma
privilegiada de “actualizar” na vida dos crentes a vida e o amor de Jesus, de
estar em comunhão com Jesus, de “assimilar” o projecto de Jesus e de o
concretizar no mundo.
ACTUALIZAÇÃO
• A liturgia da comemoração dos Fiéis Defuntos assegura-nos que Deus tem um
projecto de vida definitiva para oferecer aos homens: o caminho que percorremos
nesta terra não termina no fracasso e na morte, mas no encontro com a vida
verdadeira e eterna. Ora, o Evangelho que hoje nos é proposto confirma e
garante esse ensinamento fundamental: cumprindo o seu projecto de salvação,
Deus enviou Jesus ao mundo (Jesus apresenta-Se como “o pão que desceu do céu”)
para que os homens pudessem chegar à vida eterna. A liturgia deste dia
convida-nos, antes de mais, a contemplar o amor de Deus por nós, a constatar a
sua incrível preocupação com a nossa felicidade e com a nossa realização plena,
a descobrir que não estamos perdidos e abandonados face à nossa fragilidade,
debilidade e finitude. Esta constatação deve levar-nos a encarar, com
serenidade e confiança, a nossa caminhada pela terra, com a certeza de que nos
espera, para lá do horizonte deste mundo imperfeito, a vida verdadeira e
definitiva.
• Como é que chegamos a adquirir essa vida verdadeira e definitiva? O Evangelho
deste domingo afirma, categoricamente, que quem aceita comer a carne e beber o
sangue de Jesus viverá eternamente. Ora, comer a carne e beber o sangue de
Jesus é, antes de mais, acolher, assimilar e interiorizar essa proposta de vida
que Jesus nos fez (com a sua Palavra, com o seu exemplo, com os seus gestos,
com o seu amor); é, como Jesus, colocar a própria vida ao serviço dos projectos
de Deus e fazer da própria existência um dom de amor aos irmãos. Este programa
de vida não é, como é notório para qualquer um de nós, demasiado apreciado numa
cultura como a nossa, fortemente marcada pelo egoísmo, pelo individualismo e
pela auto-suficiência. Que não restem, contudo, dúvidas: só encontraremos essa
vida plena e eterna a que aspiramos, seguindo Jesus, assimilando os seus
valores, fazendo da nossa vida um serviço a Deus e aos irmãos com quem nos
cruzamos nos caminhos do mundo. Se aceitarmos conduzir a vida de acordo com
esses parâmetros, o horizonte final da nossa caminhada por esta terra não é a
morte, mas a vida eterna.
• A Eucaristia é um momento privilegiado de encontro com esse Cristo que Se faz
“dom” e que vem ao nosso encontro para nos oferecer a vida plena e definitiva.
Participar no encontro eucarístico, comer a carne e beber o sangue de Jesus é
encontrar-se, hoje, com esse Cristo que veio ao encontro dos homens e que
tornou presente na sua “carne” (na sua pessoa física) uma vida feita amor, partilha,
entrega, até ao dom total de Si mesmo na cruz (“sangue”). Para nós, os crentes,
a Eucaristia – mais do que um rito que cumprimos por obrigação ou por tradição
– tem de ser um momento privilegiado de encontro e de compromisso com Jesus e
com essa vida nova e eterna que Ele continuamente nos oferece.
• Sentar-se à mesa da Eucaristia é identificar-se com Jesus, aceitar viver em
união com Ele. Na Eucaristia, o alimento servido é o próprio Cristo. Por isso,
é a própria vida de Cristo que passa a circular nos crentes. Quem acolhe essa
vida que Jesus oferece torna-se um com Ele. Comer cada domingo (ou cada dia) à
mesa com Jesus desse alimento que Ele próprio dá e que é a sua pessoa, leva os
crentes a uma comunhão total de vida com Jesus e a fazer parte da família do
próprio Jesus. Convém termos consciência desta realidade: celebrar a Eucaristia
é aprofundarmos os laços familiares que nos unem a Jesus, identificarmo-nos com
Ele, deixarmos que a sua vida circule em nós. O crente, alimentado pela
Eucaristia, identificado com Jesus, transformado num homem novo, transporta
consigo dinamismos de vida eterna.
• Na concepção judaica, a partilha do mesmo alimento à volta da mesa gera entre
os convivas familiaridade e comunhão. Assim, os crentes que participam da Eucaristia
passam a ser irmãos: todos partilham a mesma vida, a vida do Cristo do amor
total. Dessa forma, a participação na Eucaristia tem de resultar no reforço da
comunhão dos irmãos. Uma comunidade que celebra a Eucaristia é uma comunidade
que aceitou banir do seu próprio seio tudo o que é divisão, ciúme, conflito,
orgulho, auto-suficiência, indiferença para com as dores e as necessidades dos
irmãos… A comunidade que se alimenta da Eucaristia deve ser, portanto, um
anúncio vivo desse mundo novo de fraternidade, de justiça e de paz que nos
espera para além desta terra.
• Finalmente, o comer a carne e beber o sangue de Jesus implica um compromisso
com esse mesmo projecto que Jesus procurou concretizar em toda a sua vida, em
todos os seus gestos, em todas as suas palavras. O crente que celebra a
Eucaristia tem de levar ao mundo e aos homens essa vida que aí recebe… Tem de
lutar, como Jesus, contra a injustiça, o egoísmo, a opressão, o pecado; tem de
esforçar-se, como Jesus, por eliminar tudo o que desfeia o mundo e causa
sofrimento e morte; tem de construir, como Jesus, um mundo de liberdade, de
amor e de paz; tem de testemunhar, como Jesus, que a vida verdadeira é aquela
que se faz amor, serviço, partilha, doação até às últimas consequências. O
crente que come a carne e que bebe o sangue de Jesus torna-se uma fonte de onde
brota, para o mundo e para os homens, a vida eterna.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA
PARA
ESCUTAR,
PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo
Dinamizador:
P.
Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província
Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua
Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel.
218540900 – Fax: 218540909
portugal@dehonianos.org – www.dehonianos.org