quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

CUIDADO COM A TRAVE NO OLHO – Maria de Lourdes Cury Macedo.


Domingo, 3 de março de 2019.
Evangelho de Lc 6, 39-45.


A liturgia deste 8ª domingo do tempo Comum nos leva a olharmos para dentro de nós mesmos, avaliar quem somos realmente, qual nosso comportamento, quais são nossas atitudes para nos conhecermos bem, e assim podermos ajudar os outros. Para nós, seres humanos imperfeitos, é muito mais fácil enxergar os defeitos do próximo, do que corrigir os nossos.
Com essa parábola Jesus chama a atenção de seus apóstolos e nossa que hoje somos seus discípulos. Precisamos nos conhecer bem, enxergar nossas fraquezas e limitações para depois querer guiar o nosso irmão. Sabemos muito bem que um cego não pode guiar outro cego, ambos cairão, tropeçarão, se machucarão... O mesmo acontece conosco quando apontamos o defeito dos outros sem antes corrigir os nossos. É muito mais fácil apontar as faltas dos outros, do que corrigir as nossas, ou melhor, sem primeiro enxergar os nossos defeitos.
Não podemos nos julgar “os perfeitos”, os fariseus eram assim, nem queiramos ser melhores do que ninguém, achando que não temos defeitos, ou que nossos defeitos são menores do que dos outros. Diz o evangelho de hoje: “Nenhum discípulo é maior do que o mestre”, na verdade não somos maiores e nem melhores que ninguém, somos iguais em defeitos e qualidades, embora sejam diferentes. Portanto, não devemos julgar para não sermos julgados. Por isso Jesus nos diz: “tire a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão” (Lc 6, 42). Agimos dessa forma, temos muita facilidade para enxergar o defeito do outro, julgar e condenar as pessoas, mas não temos consciência ou não vemos os nossos defeitos, que muitas vezes são maiores do que os defeitos que julgamos e condenamos no próximo. Consideramos grandes os erros mínimos do irmão, enquanto vemos como pequenos, os nossos próprios grandes erros. Devemos sim usar da correção fraterna com humildade, como nos ensina Jesus, ajudar o irmão a se livrar dos seus defeitos, com caridade, amor, compreensão, sem julgar e condenar.  
Jesus usa a metáfora da árvore e do fruto para nos ensinar que as pessoas vão nos conhecer pelo nosso modo de agir, pensar, falar, proceder. O evangelho também nos diz que o nosso coração é como um baú onde estão guardados os “tesouros” que temos. Quem tem coisas boas no coração, vai tirar coisas boas, quem tem coisas más, ruins no coração vai tirar coisas más. Isso nós deixamos transparecer pelo nosso modo de ser, pois a boca fala daquilo que o coração está cheio. Essa frase nos leva a refletir sobre o que temos guardado no nosso coração, e extrair dele e jogar fora tudo o que não serve. “Lixo se joga no lixo”!
Conta uma pequena história que nós temos duas sacolas que colocamos no ombro, de forma que uma fica a nossa frente e a outra nas nossas costas. Na sacola da frente colocamos os erros dos outros e as nossas qualidades, na de trás, as qualidades do outro e os nossos erros. De forma que só enxergamos os defeitos e erros dos outros, e as nossas qualidades, assim, não enxergamos as qualidades do outro e nossos erros, pois estão ocultos para nós.
Portanto, sou capaz de ver o comportamento do outro que me incomoda, mas não vejo o meu. Precisamos diariamente pedir a Jesus, que é Verdade, para revelar a minha verdade, a falta de autoconhecimento.
Faço julgamentos ao querer tirar “o cisco do olho do meu irmão”, quando eu mesma não sou capaz de ‘ver’ como estou agindo. Se o comportamento do outro me incomoda, e o meu, o quanto deve incomodar o meu próximo?
Não nascemos prontos, precisamos caminhar e progredir, estamos sempre em crescimento. Somos discípulos de Jesus, estamos em processo permanente de crescimento. Precisamos pedir ao Espírito Santo que purifique os nossos pensamentos, sentimentos e as nossas atitudes a cada dia, que ele nos ajude a eliminar a trave do nosso olho, assim permitiremos que o amor de Deus habite em nosso coração e o nosso julgamento será mais indulgente e misericordioso e poderemos um dia viver como Jesus viveu.
Senhor Jesus, alimente em nós a convicção de que para vencer o mal nos outros, nós teremos de vencer primeiro em nós mesmos.
Abraços em Cristo!
Maria de Lourdes


        



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

8o Domingo do Tempo Comum-Jorge Lorente


Evangelhos Dominicais Comentados

03/março/2019 – 8o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Lc 6, 39-45

Jesus contou uma parábola aos discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? Nenhum discípulo é maior do que o mestre; e todo discípulo bem formado será como o seu mestre. Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção na trave que há no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: ‘Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem, para tirar o cisco do olho do seu irmão. Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons; porque toda árvore é conhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem se apanham uvas de plantas espinhosas. O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, mas o homem mau tira do seu mal coisas más, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio”.

Mais uma vez nos reunimos para meditar a Palavra de Deus. No Evangelho de hoje, nos deparamos com Jesus falando aos seus discípulos, sem rodeios e sem meias palavras. Jesus nos deixa hoje uma verdadeira aula de catequese.

Usando parábolas realistas, Jesus quer mostrar aos seus discípulos que não é possível evangelizar sem preparo. Mostra também que falhas e defeitos não são exclusividades dos outros, nós também temos os nossos defeitos, e não é preciso procurar muito para encontrá-los.

Os seguidores do Mestre, terão que transmitir com fidelidade a Boa Nova da Salvação. Precisam pregar o evangelho a toda criatura. Jesus sabe que eles só terão êxito nessa tarefa se estiverem bem preparados, por isso não perde tempo e inicia o treinamento.

“Pode um cego guiar outro cego?” Com essa pergunta Jesus quer saber se, pode ensinar retidão quem caminha por estradas tortuosas? Se pode levar à luz, quem caminha nas trevas? O verdadeiro discípulo tem que ser autêntico e não pode usar o método do faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço.

“O discípulo não está acima do Mestre; nem o servo acima do seu Senhor”. O discípulo bem formado, será como o Mestre, viverá as palavras que diz, porém precisa ter cuidado, precisa estar atento, manter os pés no chão e lutar contra a tentação de querer ser maior do que o Mestre.
O apóstolo, o discípulo é o pastor, é o amigo que o rebanho segue confiante, é o responsável pelo bem-estar e pela integridade de cada uma das ovelhas. Precisa ser sincero e leal, pois, se não tiver credibilidade, se não transformar suas palavras em gestos concretos, será como um cego guiando outro cego.

Jesus fala da árvore boa e de seus frutos. Essa comparação é muito significativa e refere-se a cada um de nós. Uma postura humilde, a procura constante da verdade, da justiça e do amor, são os bons frutos do verdadeiro discípulo.

Jesus fala também de uma outra árvore, aquela ruim, que não produz bons frutos. O descaso com os menos favorecidos, a falta de dignidade, o abuso de poder, a arrogância e a prepotência, são alguns dos piores frutos que produzimos quando nos afastamos do Mestre ou quando queremos ser maiores que Ele.

Como distinguir a boa árvore da má, como diferenciar o bom e o mau pastor? Jesus nos ensina também como distingui-los e como saber quem merece a nossa confiança. Por suas palavras podemos reconhecê-los, é no falar que o homem se revela. As palavras e as ações revelam o valor interior das pessoas.

Jesus ensina de um modo novo, e não como os escribas e fariseus. Ele prega uma nova justiça, aquela que vem do coração; feita de sinceridade, humildade e amor. A pessoa reta e justa produz frutos de santidade para o próximo e para si própria. Até mesmo numa roda de amigos, é bom observar o conteúdo do assunto, pois o nível da conversa é o atestado do caráter.

Falar menos com a boca e mais com o coração, esse é o segredo do verdadeiro seguidor de Jesus. Quem fala com o coração promove e defende a vida. As palavras só convencem se proclamadas com fé e alegria. A fé tem que ser traduzida em testemunho de vida, e a alegria tem que estar carregada de sinais de vivência cristã.

(02126)





Deixai vir a mim os pequeninos-Dehonianos


2 Março 2019
Lectio
Primeira leitura: Ben Sirá 17, 1-13 (gr 1-15)
O Senhor criou os homens a partir da terra, e a ela de novo os faz voltar. 2Determinou-lhes um tempo e um número de dias, e deu-lhes domínio sobre tudo o que há na terra. 3Revestiu-os de força como a si mesmo e fê-los à sua própria imagem. 4Fê-los temidos de todo o ser vivo, e impôs o seu domínio sobre os animais e as aves. 5Eles receberam o uso dos cinco poderes do Senhor; como sexto foi-lhes dada a participação da inteligência, e como sétimo, a razão, intérprete dos seus poderes. 6Dotou-os de inteligência, língua e olhos, de ouvidos e dum coração para pensar. 7Encheu-os de saber e de inteligência, e mostrou-lhes o bem e o mal. 8Pôs o seu olhar sobre os seus corações, a fim de lhes mostrar a grandeza das suas obras. 9E lhes concedeu que celebrassem eternamente as suas maravilhas. 10Louvarão o nome de Deus Santo, publicando a magnificência das suas obras. 11Concedeu-lhes a ciência, e deu-lhes em herança a lei da vida. 12Concluiu com eles uma Aliança eterna, e revelou-lhes os seus decretos. 13Viram com os próprios olhos a grandeza da sua glória, os seus ouvidos escutaram a majestade da sua voz. 14Disse-lhes: «Guardai-vos de toda a iniquidade» e impôs a cada um deveres para com o próximo. 15Os seus caminhos estão sempre diante dele, não poderão ficar ocultos aos seus olhos.
O autor sagrado, inspirando-se na tradição bíblica, que remonta aos dois primeiros capítulos do Génesis, apresenta o homem como vértice da Criação. Mas há uma infinita diferença entre Deus e o homem. E não pode haver qualquer tipo de confusão que leve o homem a cair na tentação da autonomia ou da auto-suficiência perante Deus. Deus é o Criador; o homem é criatura. A maior parte dos verbos tem Deus por sujeito e elenca dons e prerrogativas que tornam grandes e nobres os homens. É Deus que confia aos homens o «domínio» da Criação. O vértice dos dons conferidos aos homens é atingido na expressão: «fê-los à sua própria imagem» (v. 3). É a afirmação mais singular e mais original da antropologia bíblica. Os homens levam impresso em si mesmos algo de divino e são "familiares" de Deus. O v. 7 sugere a ideia de que Deus como que nos emprestou os seus olhos para contemplarmos a Criação com o Seu próprio encanto. Outro excelente dom é o da consciência (cf. v 6b).
Todos estes benefícios de Deus exigem uma resposta. Os homens hão-de reagir a esses dons com o louvor (cf. v. 8). A Criação revela a grandeza e a magnificência de Deus, que o homem, dotado de inteligência, admira e celebra com amor.
Evangelho: Marcos 10, 13-16
Naquele tempo, apresentaram a Jesus uns pequeninos para que Ele os tocasse; mas os discípulos repreenderam os que os haviam trazido. 14Vendo isto, Jesus indignou-se e disse-lhes: «Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis, porque o Reino de Deus pertence aos que são como eles. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele.» 16Depois, tomou-os nos braços e abençoou-os, impondo-lhes as mãos.
A renúncia ao orgulho é outra característica da comunidade messiânica. O episódio da apresentação de alguns meninos a Jesus é significativo e claro a este respeito. Os discípulos pretendiam afastar as crianças, não porque incomodavam Jesus, mas porque, como as mulheres, representavam pouco ou mesmo nada. Segundo a mentalidade comum, de que os discípulos naturalmente também partilhavam, o Reino não era para crianças, mas para adultos, capazes de opções conscientes, de obras correspondentes e de adquirir méritos. Para Jesus, era tudo ao contrário: o Reino é um dom de Deus, que é preciso receber com disponibilidade. As crianças são as pessoas mais disponíveis para acolher dons, porque são pequenos e pobres, sem seguranças a defender ou privilégios a reclamar. Assim devem ser os discípulos de Cristo (v. 15), porque o Reino não é uma conquista pessoal, mas dom gratuito de Deus a esperar e a acolher com simplicidade e confiança. Ao abraçar as crianças, Jesus elimina toda a distância entre Ele e as crianças, e torna-se modelo daquela vida a que se chama «infância espiritual». De facto, dirige-se ao Pai com a palavra «abba», submete-se à sua vontade, abandona-se nas suas mãos.
Meditatio
A primeira leitura e o evangelho celebram o valor do homem. Vêm, pois, ao encontro da mentalidade que se impôs na sociedade moderna, que proclama os direitos humanos, realça a dignidade do homem e defende a sua liberdade. Infelizmente, na prática, nem sempre assim acontece, pois são ainda demais os atropelos a esses direitos. Na sociedade em que vivemos há pessoas oprimidas e exploradas, que vivem em condições incompatíveis com a dignidade humana: situações de pessoas singulares, de famílias, de grupos. Devemos lutar, conforme as nossas possibilidades, a fim de que a justiça se realize, afim de que o pecado social seja eliminado.
Mas o autor sagrado está interessado em apresentar o homem, não tanto em geral, mas na sua relação com Deus. Na lectio, notámos que o sujeito de quase todos os verbos é Deus. Como vemos também no Sl 8, é Deus que confere nobreza ao homem e o coloca no vértice da criação. A nobreza do homem é, pois, um dom recebido e não um fruto de sua conquistada. Tudo o que o homem é, tudo o que o homem tem, é dom do amor generoso e gratuito de Deus: a inteligência, língua e olhos, os ouvidos e o coração para pensar, a ciência... O Senhor, acima de tudo, «concluiu com eles uma Aliança eterna e revelou-lhes os seus decretos» (v. 12). O Sábio fala evidentemente da aliança com Moisés e da Lei das duas tábuas. Maior razão temos nós para nos espantarmos diante da bondade divina, ao pensarmos na Nova Aliança selada com o sangue de Cristo e na Nova Lei escrita nos nossos corações, que nos faz viver no Espírito Santo como filhos de Deus.
No evangelho, Jesus repete a este homem tão grande, por causa dos dons de Deus, que saiba acolher o Reino de Deus com a simplicidade de uma criança. Para sermos "crianças", em sentido evangélico, temos um caminho: ser filhos de Maria. Ela soube ser pequena e estar contente com essa situação: «O meu espírito exulta em Deus, porque olhou para a humildade da sua serva» (cf. Lc 1, 46-48). É difícil sermos felizes com as nossas limitações. O segredo consiste em ser humildes e magnânimos. Por isso, é que Maria pôde falar de si em termos de grandeza e de humildade.
Maria foi adulta na fé. Como diz o Sábio, soube usar o discernimento para raciocinar. Fez perguntas essenciais ao Anjo da Anunciação para obter respostas precisas. Mas também foi pequena, dócil e confiante para se abandonar a Deus e ao seu projecto, mesmo sem perceber tud
o.
Agradeçamos ao Senhor por nos ter dado Maria por Mãe e modelo, que nos ajuda a compreender a necessidade da pequenez e a crescer nela para recebermos as graças divinas.
Oratio
Obrigado, meu Deus, por Te teres lembrado de mim, me teres feito à tua imagem e semelhança, me teres coroado de glória e de honra, me teres dado poder sobre as obras das tuas mãos. O teu nome é grande. É santo e glorioso! Bendito sejas, agora e para sempre!
Que, iluminado pelo teu Espírito, eu saiba reconhecer a minha dignidade e a dos meus semelhantes, respeitar-me e respeitar os outros. Que, animado pela caridade que infundiste no meu coração, eu saiba amar-me e amar todos os meus irmãos, trabalhando pelo reconhecimento dos seus direitos, esforçando-me generosamente pela sua promoção humana e espiritual. Amen.
Contemplatio
A realeza de Jesus Cristo é ensinada por todo o Evangelho. Deus uniu o Verbo incarnado à sua realeza e encarregou-o de governar o céu e a terra: «Todo o poder me foi dado no céu e na terra. - Meu Pai entregou-me tudo», diz Nosso Senhor em S. Mateus (Mt 28, 11). «O Pai ama o seu Filho e colocou tudo nas suas mãos. - Meu Pai, os meus discípulos eram vossos, mas vós mos haveis dado», diz ainda Nosso Senhor em S. João (Jo 3; 17). «O seu Pai colocou tudo sob a sua dependência e colocou-o à cabeça de toda a igreja», diz S. Paulo em Efésios (1,22). «Não foi aos anjos que Deus submeteu o mundo futuro, diz S. Paulo aos Hebreus (2,5). Mas é dito numa passagem da Escritura (Sl 8): Que é o homem para que vos lembreis dele? E o que é o filho do homem para que o visiteis? Por pouco tempo, o tornastes inferior aos anjos, e depois coroaste-lo de glória e de honra, destes-lhe o domínio sobre a obra das vossas mãos, colocastes todas as coisas sob os seus pés. Desde que Deus lhe submeteu todas as coisas, acrescenta o apóstolo, nada deixou, portanto, que não lhe esteja submetido». (Leão Dehon, OSP4, p. 185)
Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele» (Mc 10, 15).
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Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj


É permitido divorciar-se?-Dehonianos


1 Março 2019
Lectio
Primeira leitura: Ben Sirá 6, 5-17
Palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis. 6Procura estar de bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. 7Se queres ter um amigo, põe-no primeiro à prova, não confies nele muito depressa. 8Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. 9Há amigo que se torna inimigo, que desvendará as tuas fraquezas, para tua vergonha. 10Há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça; 11na tua prosperidade mostra-se igual a ti, dirigindo-se com à vontade aos teus servos; 12mas, se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. 13Afasta-te daqueles que são teus inimigos, e está alerta com os teus amigos. 14Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. 15Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. 16Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo. 17O que teme o Senhor terá também boas amizades, porque o seu amigo será semelhante a ele.
O autor sagrado retira do rico tesouro da experiência humana algumas preciosas máximas que nos oferece. Algumas tornaram-se provérbios populares. E conclui com uma pincelada teológica confirmando que o objectivo da literatura sapiencial bíblica é levar-nos a um encontro muito próximo com Deus.
O primeiro conselho do sábio é que falemos bem aos outros, se quisermos ter amigos. Falar com ira, com sarcasmo, com críticas a tudo e a todos, não alarga o círculo dos nossos amigos. Também é preciso saber escolher os amigos. "Amigalhaços" há muitos. Mas os verdadeiros amigos, os amigos íntimos devem ser bem seleccionados. O autor sagrado sugere, depois destas afirmações gerais, alguns critérios para seleccionarmos os amigos. Há amigos que o são enquanto recebem favores, almoços e jantares grátis. Mas quando surge algum contratempo, imediatamente viram costas e, por vezes, acabam por se tornar inimigos. O verdadeiro amigo há-de ser provado na sua fidelidade, isto é, na sua capacidade de continuar próximo de nós quando surge a tribulação. É esse amigo fiel que constitui para nós «um tesouro» (v. 14), a cujo valor nada se iguala (cf. v. 15).
Evangelho: Marcos 10, 1-12
Naquele tempo, Jesus saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. 2Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. 3Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» 4Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» 5Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. 6Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, 8e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. 9Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» 10De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. 11Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»
A comunidade messiânica deve ultrapassar a moral exclusivamente legalista, característica dos fariseus. Eles, com a pergunta sobre o divórcio, querem «experimentá-lo», pô-lo em apuros. O divórcio hebraico era regulado por Dt 24, 1-4, cujo propósito inicial era tutelar a mulher e garantir-lhe uma certa liberdade. Mas as escolas rabínicas discutiam os motivos de divórcio. As mais liberais achavam que bastava a mulher deixar queimar a comida, ou o marido encontrar outra mais bonita, para haver divórcio. Outras achavam que só o adultério justificava o divórcio. De qualquer modo, o divórcio era concedido pela legislação em vigor com muita facilidade, o que naturalmente acabava por prejudicar a mulher.
Como é seu costume, Jesus responde à questão com outra questão, obrigando os seus interlocutores a aprofundar o sentido da sua objecção. No juízo moral, há que distinguir o que é regra humana, por muito aceitável que ela seja, e a perspectiva de Deus. As prescrições mosaicas sobre o divórcio reflectem a mediocridade humana e não o projecto primordial de Deus sobre a união do homem e da mulher. A moral farisaica fundamentava-se na não confessada inferioridade da mulher, que era considerada propriedade do homem. Para Jesus, à luz do Génesis, a união do homem e da mulher é a meta de uma plenitude humana. Não é o homem que toma posse da mulher, nem o contrário, mas, ao casarem, ambos se enriquecem mutuamente. A união matrimonial procede de Deus e é um verdadeiro «sacrilégio» contrapor-lhe um projecto de separação e divergência.
O homem e a mulher levam em si a imagem de Deus-Amor e, ainda que na diferença, são chamados a ser uma só coisa no matrimónio (v. 8). A ninguém é permitido quebrar essa união (v. 9).
Meditatio
Para encontrar amigos, há que fazer um bom discernimento. O Sábio oferece-nos conselhos práticos para esse discernimento, lembrando que os verdadeiros amigos são poucos. Há os amigos de viagem, de restaurante, de jogo, de clube, de partido... O verdadeiro amigo manifesta-se nas situações difíceis, quando estamos fragilizados, em crise, quando nada podemos retribuir. É nesses amigos que podemos confiar e apoiar-nos. Muitas amizades são frágeis e superficiais, porque assentes em sentimentos passageiros ou em interesses que, uma vez satisfeitos, fazem esquecer quem os satisfez.
Um critério para avaliar os amigos é-nos oferecido pela fé: quem ama a Deus, procura alimentar a sua vida com valores que verifica com a vontade divina. Por isso, se pode presumir que também seja capaz de cultivar o valor da amizade. Quantas amizades nasceram e se desenvolveram à sombra da torre da igreja ou nos grupos eclesiais. Sem cair em discursos de "gueto", verificamos que um sentimento religioso comum ajuda a fundar, construir e espalhar o valor da amizade.
Pode acontecer que andemos convencidos de que amar é sempre algo de agradável. Por isso, quando uma amizade se torna difícil, parece-nos que já não existe amor. Jesus, implicitamente, ensina-nos que o amor traz consigo o sacrifício, a capacidade de suportar o outro. É clara a regra que oferece para o matrimónio: Deus estabeleceu que a união esponsal é indissolúvel. Só por causa da «dureza do coração» humano é que Moisés permitiu passar o «documento de repúdio e divorciar-se» (v. 4).
Os discípulos também acharam muito duras as palavras de Jes
us e, por isso, disseram-Lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas é dele que vem a força, se formos dóceis à sua vontade, para amar de modo verdadeiro e fiel, com paciência e misericórdia. Parece-nos lógico que os outros tenham de ter paciência connosco. Mas nem sempre estamos dispostos a suportar os defeitos dos outros. «Não vos queixeis uns dos outros», recomenda S. Tiago (Tg 5, 9). Deus não se queixa de nós. Ama-nos porque é «rico em misericórdia e compaixão» (Ef 5, 9).
Muitas comunidades cristãs, e mesmo religiosas, tornam-se ambientes onde se vive como estranhos uns ao lado dos outros, se passa uns ao lado dos outros, mergulhados nas próprias preocupações, nos próprios problemas, sem nos comunicarmos as riquezas, as alegrias, o amor que há em nós. Com este tipo de atitudes, faltam condições para que surjam amizades e possam ser cultivadas.
Oratio
Senhor, faz-me amar como Tu me amas. Faz-me caminhar pelas sendas de uma solidariedade forte e generosa, que não desanime perante as dificuldades, porque fundada em Ti e no teu amor oblativo. Conscientes de que fomos gerados, não por semente corruptível, mas pela semente imortal, que é a tua palavra viva e eterna, ajuda-nos a amar-Te intensamente, e a amar-nos uns aos outros, com todo o coração. Amen.
Contemplatio
Amor terno e fiel (de S. João). No Cenáculo, é a ternura do amor de S. João por Jesus que se manifesta; no Calvário, é a sua fidelidade. S. João esgota todas as expressões para narrar esta troca de ternura no Cenáculo. «O discípulo, diz, estava deitado sobre o seio do seu Mestre; é um discípulo que Jesus amava particularmente; repousava sobre o peito do Salvador; tinha com o Salvador conversas particulares...». Pode conceber-se maior intimidade, afecto mais puro e ardente! No Calvário, é a fidelidade na amizade que se manifesta. S. João passou pelo sono, é verdade, no Getsémani, menos que Pedro, parece. Está mais pronto que Pedro para um generoso sacrifício. Quando Jesus é preso, segue-o de perto e não somente de longe como S. Pedro. Penetra no átrio da casa do sumo-sacerdote, enquanto que Pedro fica à porta. A amizade fiel não é acessível ao medo. Encontra Jesus no caminho do Calvário com Maria. Mas o triunfo da sua fidelidade é no Calvário. De todos os apóstolos e de todos os discípulos, só resta ele. É o único a enfrentar o perigo. Expõe-se à cólera dos algozes. Será o último a ficar, estará na descida da cruz, no enterro. Acorrerá com Pedro ao túmulo depois da ressurreição. Mas também que belas recompensas recebeu a sua fidelidade! Foi o único a ser aspergido com o sangue redentor e santificador! O único que recebeu Maria como herança, como sua Mãe e companheira da sua vida! O único que assistiu à abertura do Coração de Jesus e dele recebeu as primeiras graças! (Leão Dehon, OSP3, p. 403s.).
Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«Quem encontrou um amigo, descobriu um tesouro» (Sir 6, 14).
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Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj


Não escandalize os pequenos-Dehonianos


28 Fevereiro 2019
Lectio
Primeira leitura: Ben Sirá 5, 1-10 (gr 1-8)
Não te fies nas tuas riquezas, e não digas: «Tenho suficiente para mim.» 2Não sigas os teus desejos e a tua força, indo atrás das paixões do coração. 3Não digas: «Quem terá poder sobre mim?», porque o Senhor te punirá certamente. 4Não digas: «Pequei, e que me aconteceu de mal?», porque o Senhor é lento em castigar. 5Não vivas confiado no perdão, acumulando pecado sobre pecado. 6Não digas: «A misericórdia do Senhor é grande, Ele terá compaixão da multidão dos meus pecados!», porque nele a misericórdia e a ira caminham juntas; e o seu furor cairá sobre os pecadores. 7Não tardes em te converter ao Senhor, não adies, de dia para dia, porque a ira do Senhor virá de repente, e Ele te fará perecer no dia do castigo. 8Não confies em riquezas injustas, pois de nada te servirão no dia da desventura.
O sábio apercebe-se da vacuidade de tantas atitudes e comportamentos, que minam a vida e inquinam a existência. Por isso, avisa os ingénuos, para que não caiam em armadilhas que causam a morte. Alguns gabam-se de ter feito o mal e de nada lhes ter acontecido. A verdade é que, «a misericórdia e a ira do Senhor caminham juntas», e que, mais cedo ou mais tarde, «o seu furor cairá sobre os pecadores» (v. 6). É melhor estar bem informados, antes que seja tarde demais. Segue-se um decálogo negativo, que pretende barrar o caminho a decisões perigosas: «não digas... não sigas... não vivas... não tardes... não adies... não confies...». Estas proibições podem agrupar-se tematicamente à volta dos temas da riqueza, da força, da presunção diante de Deus. O esquema repete-se. É preciso ter cuidado em não dar excessivo valor às riquezas. Uma riqueza desonesta não garante o futuro (cf. v. 8). Também não vale a pena usar a força com prepotência: «o Senhor te punirá certamente» (v. 3b). Pecar de modo arrogante, e confiar levianamente no perdão de Deus, esquecendo o dever do arrependimento e da conversão, é tolice. O sábio não se cansa de pregar todas estas verdades. Há que tomar em atenção as suas avisadas palavras, porque elas, e a misericórdia de Deus, são preciosos instrumentos de renovação da nossa vida.
Evangelho: Marcos 9, 41-50
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «quem for que vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.» 42«E se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos, e lançarem-no ao mar. 43Se a tua mão é para ti ocasião de queda, corta-a; mais vale entrares mutilado na vida, do que, com as duas mãos, ires para a Geena, para o fogo que não se apaga, 44onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 45Se o teu pé é para ti ocasião de queda, corta-o; mais vale entrares coxo na vida, do que, com os dois pés, seres lançado à Geena, 46onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 47E se um dos teus olhos é para ti ocasião de queda, arranca-o; mais vale entrares com um só no Reino de Deus, do que, com os dois olhos, seres lançado à Geena, 48onde o verme não morre e o fogo não se apaga. 49Todos serão salgados com fogo. 50O sal é coisa boa; mas, se o sal ficar insosso, com que haveis de o temperar? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.»
Jesus continua a sua caminhada para Jerusalém e chega a Cafarnaúm. Marcos insere aqui uma colecção de ensinamentos sobre o discipulado, aparentemente desligados entre si. Mas neles encontramos algumas palavras-chave que os ligam uns aos outros: a expressão «em nome» de Cristo, ou «por serdes de Cristo» (v. 41), já fora anunciada no v. 37; o termo «escândalo» (v. 42) antecipa a secção seguinte (vv. 43-48); a sentença conclusiva do «sal» (v. 50) apela para o versículo anterior.
No texto que escutamos, Jesus começa a tratar do acolhimento, apontando alguns gestos simples, feitos em seu nome, porque é Ele que dá significado às acções humanas, e lhes confere valor de eternidade (v. 41). Depois, fala do escândalo: quem põe obstáculos àqueles que ainda são frágeis na fé, merece uma pena severa. Nos vv. 43-47, Marcos adopta a linguagem paradoxal para indicar a radicalidade e a dureza do juízo: é melhor sacrificar os órgãos vitais do que aderir ao pecado e cair na condenação eterna.
As imagens do sal e do fogo servem para retomar o tema do sacrifício de si mesmo em vista da preservação ou da purificação do pecado. A sabedoria de Cristo deve dar sabor a todas as nossas acções; o fogo do amor deve arder sempre para pôr a nossa vida ao serviço da comunhão. É preciso dispor-se a perder... para tudo ganhar: «quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc 8, 35).
Meditatio
O sábio da primeira leitura adverte-nos que não se pode brincar com a vida porque só temos uma. Há comportamentos que têm as suas consequências. Há caminhos sem regresso. Ben Sirá insiste numa educação preventiva: mostra o engano de certas opções e, indirectamente, aponta o caminho certo. A riqueza, por exemplo, não é um baluarte inexpugnável. Por isso, não convém pôr nela uma confiança cega e absoluta.
O discurso de Jesus, que escutamos no evangelho de hoje, não é menos severo. Se não devemos ser fundamentalistas, aplicando-o literalmente, não podemos menosprezar-lhe o conteúdo. Se não devemos lançar-nos ao mar com uma pedra de moinho ao pescoço, se não devemos cortar à machada a mão ou o pé, ou arrancar um dos olhos, não podemos hesitar diante de algumas privações exigidas em vista do nosso progresso espiritual. A palavra de Jesus alerta-nos para a falta de coerência em que facilmente caímos, e lembra-nos a verdade do que lemos na Carta aos Hebreus: «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração» (Heb 4, 12). A palavra de Deus é um verdadeiro bisturi. Como o médico o usa para salvar o seu doente, assim Jesus usa a sua palavra para salvar a nossa vida: «mais vale entrares mutilado na vida, do que, com as duas mãos, ires para a Geena» (v. 43). A intenção de Jesus, expressa em linguagem metafórica, é positiva: quer libertar-nos, quer dar-nos a vida! Cada um deve discernir o que precisa de cortar para "entrar na vida". Para uns ser&aacut
e; uma relação ambígua, para outros certos espectáculos ou leituras, para outros ainda o modo como tentam ganhar espaço no campo da política, ou tentam acumular dinheiro... A estes últimos S. Tiago lembra que as riquezas podem constituir um grande perigo: «E agora vós, ó ricos, chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós» (Tg 5, 1-3ª.) O apóstolo chega mesmo ao sarcasmo: «Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites... para o dia da matança!» (Tg 5, 5).
Escutemos as palavras do Sábio, as palavras do Apóstolo e, principalmente, as palavras de Jesus. Não façamos como a avestruz que, ao ver o perigo, enterra a cabeça na areia.
Como religiosos, devemos dar um testemunho claro de pobreza afectiva e efectiva no nosso mundo tão marcado por uma mentalidade materialista e paganizante. Não é um testemunho fácil, porque não se reconhece o valor da pobreza evangélica. Mas é necessário. Sem ele, podem ficar ofuscados outros ideais evangélicos! Mais do que negar o valor das coisas, a nossa pobreza é uma afirmação do valor supremo que é Deus. «Só Deus», repetia Rafael Arnaiz, monge trapista recentemente canonizado.
Oratio
Senhor, ilumina-me com a tua palavra, por vezes mais dura e penetrante, que uma espada de dois gumes. Faz-me reconhecer a minha real situação espiritual, e acolher os teus avisos, que apenas têm em vista a plenitude de vida a que me chamas. Faz-me decidido e vigoroso na luta contra as tentações e na renúncia radical às ocasiões de pecado. Dá-me coragem para cortar tudo quanto dificulta ou impede caminhar Contigo e para Ti, que és o meu Bem, o meu Supremo Bem. Amen.
Contemplatio
Nosso Senhor disse: «Mais vale perder o membro que escandaliza do que ser lançado no fogo eterno» (Mt 3, 12). S. Marcos completa o mesmo discurso acrescentando que na Geena o verme roedor não morre e o fogo não se extingue (c. IX). Nosso Senhor deixou-nos, aliás, a fórmula do juízo: «Ide, malditos, para o fogo eterno» (Mt 25, 41). Podia Ele falar mais claramente e podemos nós lealmente pôr em dúvida o seu pensamento? A condenação e o fogo eterno, esta é a sorte do pecador que negligencia converter-se enquanto tem tempo para isso. Preservai-me, Senhor, desta horrível sorte; ser privado de vós, viver com os demónios e os homens mais viciados, sofrer o fogo com eles: não basta esta perspectiva para me dar o horror do pecado?» (Leão Dehon, OSP 4, p. 510s.).
Actio
Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
«O Senhor conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos ímpios conduz à perdição» (Sl 1, 6).
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Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

-8º DOMINGO DO TEMPO COMUM-c-José Salviano


8º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 03 de março de 2019
Evangelho Lc 6, 39-45
PODE UM SEGO GUIAR OUTRO SEGO?-José Salviano

É impossível  um cego guiar outro cego! Não tem condições.
Do mesmo modo, é impossível um professor ensinar uma matéria que ele não sabe. Não é possível pilotar um avião se não somos pilotos, ou se não sabemos nada sobre pilotagem.
Jamais poderíamos ser o guia turístico de um grupo de pessoas por lugares onde  jamais estivemos.

Do mesmo modo, ninguém pode dar aquilo que não possui. Assim, mesmo que conhecemos a palavra, não podemos evangelizar se estivermos em pecado grave.  Jesus fez referência a isso, dizendo: Tire primeiro a trave do teu olho...  Por que assim como um cisco no olho nos impediria de enxergar e dirigir um carro pelas estradas com muitas curvas, o pecado nos impediria de ver  e receber a inspiração, a luz do Espírito Santo, e transmiti-la aos irmãos.

Deste modo, estaríamos cometendo mais um pecado. O pecado da HIPOCRISIA, pelo fato de nos apresentarmos como santos diante de pessoas santas ou não, com a intenção de convertê-las, de iluminá-las com a luz que não temos. 

Jesus chamou os fariseus de hipócritas, e mandou que eles primeiro tirassem a trave do olho, para em seguida poder ensinar, catequizar.
Não estamos afirmando aqui que Jesus quer que as pessoas pecadoras parem de orientar os outros, ou mesmo de catequizar. O que Jesus quer de nós é o seguinte: Ele quer que nos convertamos primeiro para depois promover a conversão dos nossos irmãos. 

É por isso que sempre dizemos que a catequese nem sempre é feita pela palavra em si, ou propriamente dita. Podemos e devemos também catequisar  através do nosso exemplo de vida. E em muitas ocasiões, o nosso testemunho fala mais alto do que as nossas palavras.
É importante lembrar que aquele ou aquela que não vive o Evangelho, jamais poderá ensiná-lo aos demais.

Assim como o pai que dá péssimo exemplo aos filhos e em seguida exigem que eles sejam justos não faz nenhum efeito, do mesmo modo o catequista que vive uma vida errada aos olhos de todos, jamais poderá catequisar, pois o seu trabalho não terá nenhum efeito. Pois ninguém botará fé no que ele diz.

Gostamos muito de analisar, avaliar, os outros, para não dizer, mesmo, julgar.
A correção fraterna deve ser feita com muito cuidado, com muita caridade, pois ninguém se julga errado. Ninguém admite seus erros. Só lá um ou outro faz isso. Na correção fraterna precisamos tomar cuidado para não dar uma de juiz, para  não julgar o interior do nosso irmão, ou irmã. Só Jesus pode nos julgar. Pois somente Ele conhece o nosso interior, conhece até os nossos pensamentos.

Podemos comparar a trave no nosso olho com a nossa arrogância, a qual nos faz pensar que somos melhores que os outros. E assim, temos a tendência de aproveitar para humilhar o nosso próximo, mostrando, ou revelando os seus defeitos, sob a desculpa de que estamos fazendo correção fraterna.

Jesus disse para que não julguemos nem condenemos, senão seremos julgados com a mesma medida.
A nossa mania de grandeza nos  deixa assim como cegos, e portanto incapazes de avaliar ajudar, e guiar outros cegos como nós.

Jesus escolheu os discípulos sem levar em conta os seus pecados. Por que nós não fazemos o mesmo? É muito triste notar a exclusão no nosso próprio meio, na nossa própria comunidade, ou ainda, na nossa paróquia. Muitas vezes trata-se de uma exclusão velada, sob a forma de “GELO”, mas infelizmente ela, a exclusão em certos casos existe mesmo! Isso não pode acontecer principalmente em nosso meio. Pois somos seguidores de Jesus que acolhia a todos.
Você já reparou como nós somos especialistas em corrigir as pessoas? Em apontar os seus erros como se nós fôssemos perfeitos?  Já reparou na cara e na postura do gerente,  do diretor, do comandante, e até mesmo do professor?  Todos fazem uma cara de quem sabe tudo, de quem é perfeito, de quem nunca cometeu nenhum errinho...
Nem sempre nos preocupamos em corrigir nossos próprios defeitos, e apresentamos como modelo de perfeição que deve ser seguido pelos demais.
No evangelho de hoje Jesus está denunciando essa nossa pretensão inconsequente. A pretensão de querer guiar os outros, sem estar apto para isto. E esta pretensão é igualzinho a uma sena de teatro, na qual um cego fala para o outro cego. Não esquenta. Deixa que eu vou te guiar. Vem comigo que eu te levo até lá. Vão é cair no próximo buraco!...
Não sejamos assim. Primeiro vamos tirar o cisco do nosso olho, para depois ajudar ao irmão com seu cisco.
Outro grande defeito nosso é a grande capacidade de perceber as limitações e os pecados das outras pessoas. Reparou que nas brincadeiras entre nós constantemente estamos mostrando os defeitos dos colegas? Principalmente se temos inveja de alguém.  Na rodinha da conversa durante o almoço, durante o intervalo, a tônica é apontar brincando, é claro, os defeitos e as coisas erradas que os companheiros fazem.
Se por um lado isso é bom, porque nós não enxergamos os nossos defeitos, e assim vamos procurar melhorar quando alguém nos aponta as nossas falhas, isso magoa muito principalmente quando temos uma grande falha. Suponhamos que um dos funcionários seja gago. Na hora do lanche, um engraçadinho começa a imitá-lo. Ele pode até levar na brincadeira, mais por dentro aquilo está lhe cortando, lhe magoando muito, porque ele não é assim porque o quer.

José Salviano


Seguir Jesus de coração-Helena Serpa



5 DE MARÇO DE 2019

TERÇA FEIRA – 8ª. SEMANA DO

TEMPO COMUM


Cor Verde

1ª. Leitura – Eclo 35, 1-15


Leitura do Livro do Eclesiástico 35,1-15 (Gr. 1-12)
1Aquele que guarda a lei faz muitas oferendas; 2aquele que cumpre os preceitos oferece um sacrifício salutar. (3) 4Aquele que mostra agradecimento, oferece flor de farinha, e o que pratica a beneficência oferece um sacrifício de louvor. 5O que agrada ao Senhor é afastar-se do mal, e o que o aplaca é deixar a injustiça.
6Não te apresentes na presença de Deus de mãos vazias, 7porque tudo isso se faz em virtude do preceito. 8O sacrifício do justo enriquece o altar, o seu perfume sobe ao Altíssimo. 9A oblação do justo é aceitável, e sua memória não cairá no esquecimento.
10Honra ao Senhor com coração generoso e não regateies as primícias que apresentares. 11Faze todas as tuas oferendas com semblante sereno, e com alegria consagra o teu dízimo. 12Dá a Deus segundo a doação que ele te fez, e com generosidade, conforme as tuas posses; 13porque ele é um Deus retribuidor,
e te recompensará sete vezes mais. 14Não tentes corrompê-lo com presentes: ele não os aceita; 15nem confies em sacrifício injusto, porque o Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas. Palavra do Senhor.

Reflexão – “A melhor oração é amar”
O que estamos oferecendo ao Senhor? Como O estamos honrando? O que nos garante que a nossa oferta seja agradável ao Senhor. Como saber que o perfume da nossa oração subiu aos céus? A leitura nos leva a concluir que a justiça é o parâmetro para tudo quanto oferecemos a Deus. Por isso, quando nos apresentarmos diante do Senhor, devemos ter nas mãos a marca das nossas ações de amor. Ser justo é amar ao próximo com o amor que recebemos de Deus, assim sendo, guardar a Lei do Senhor é amar; cumprir os preceitos é concretizar o amor por meio das nossas ações. Agradamos ao Senhor quando as nossas boas obras nos afastam do mal que é o desamor. A melhor oração é amar, por meio dos gestos, pensamentos, palavras e obras. Tudo isso, com o amor que parte do interior e nos motiva a oferecer sacrifícios de louvor com o coração aberto, simples e amoroso. Se formos olhar somente para a nossa situação de pecadores nunca conseguiremos agir assim, no entanto, pela graça que recebemos de Deus, com certeza aos poucos nós iremos adotando esta nova maneira de ser e de viver como uma oferta perene a Deus, em tudo o que realizarmos. - Você tem oferecido ao Senhor um coração amoroso com o próximo? - Você tenta se afastar das obras más para não desagradar a Deus? - A sua oração o (a) tem levado a compreender as consequências do amor?

Salmo  49, 5-6. 7-8. 14.23 (R. 23b)

R. A todos que procedem retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus

5'Reuni à minha frente os meus eleitos, * que selaram a Aliança em sacrifícios!' 
6Testemunha o próprio céu seu julgamento, * porque Deus mesmo é juiz e vai julgar. R. 

7'Escuta, ó meu povo, eu vou falar;+ ouve, Israel, eu testemunho contra ti: * Eu, o Senhor, somente eu, sou o teu Deus! 
8Eu não venho censurar teus sacrifícios, * pois sempre estão perante mim teus holocaustos;R. 

14Imola a Deus um sacrifício de louvor * e cumpre os votos que fizeste ao Altíssimo. 23Quem me oferece um sacrifício de louvor, * este sim é que me honra de verdade. A todo homem que procede retamente, * eu mostrarei a salvação que vem de Deus'. R.

Reflexão - A salvação que Jesus veio nos trazer é o que nos fará proceder retamente, imolar a Deus um sacrifício de louvor e cumprir os votos que fazemos ao Altíssimo. Quando acolhemos a Jesus como nosso único Senhor e Salvador nós entramos em unidade com o Seu Espírito e assim podemos oferecer a Deus um sacrifício de louvor. O verdadeiro sacrifício é aquele que Jesus ofertou na Cruz e hoje nós celebramos juntamente com toda a Sua Igreja quando participamos da Eucaristia. Pela participação no mistério da Eucaristia nós honramos de verdade o Santo Nome de Deus.

Evangelho – Mc 10, 28-31


+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos 10,28-31
Naquele tempo: 28Começou Pedro a dizer a Jesus: 'Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.' Respondeu Jesus: 'Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos,
campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vida - casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições - e, no mundo futuro, a vida eterna.
31Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros.'
Palavra da Salvação.

Reflexão - “seguir Jesus de coração”
Somente Deus, que sonda o nosso coração, sabe precisamente em que estamos sintonizados, qual é o nosso ideal, o nosso desejo interior, os nossos apegos, as nossas frustações e as nossas carências. O acolhimento ao chamado de Jesus é uma decisão interior, individual e libertadora.  Portanto, é dentro do nosso coração que decidimos deixar tudo para seguir Jesus Cristo e o Seu Evangelho. No interior de cada um de nós é que nasce o “homem novo” afastado de todo apoio do mundo e dos homens. Um coração indiviso agrada ao Senhor, isto é, um coração que tem como meta fazer somente a vontade de Deus e não se divide para afagar aos homens. Os nossos encargos, obrigações, festas, comemorações, amizades, vivência familiar, só terão valor se vividos na perspectiva do amor a Deus e consequentemente também àqueles que não fazem parte do nosso círculo restrito. É isso que Jesus nos propõe quando diz, “quem tiver deixado, casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida...e no mundo futuro a vida eterna”. A nossa família faz parte do povo de Deus, mas não podemos permanecer somente com ela. Há momentos em que temos de deixa-la para ir aonde Jesus nos mandar. Jesus nos propõe a verdadeira liberdade interior, sem apegos nem subserviência às pessoas que podem nos afastar da nossa meta de agradar a Deus e servir no Seu reino. No entanto, Jesus não nos promete uma vida sem perseguição, muito pelo contrário. Quando decidimos “deixar tudo” para seguir o Evangelho, muitos empecilhos irão aparecer, muitas incompreensões da parte das pessoas nos farão sofrer e podemos até entender que somos os últimos no reino de Deus. No entanto, a nossa perseverança e a nossa confiança nas promessas do Senhor, far-nos-ão seguir em frente na certeza de que seremos os primeiros a experimentar o reino dos céus, pois a nossa recompensa também é espiritual. – Você é completamente livre da influência das pessoas de sua família? – O seu ideal de vida tem consonância com o que Deus espera de você? – Você precisa dar satisfação às pessoas da sua família quando está no serviço de Deus? – O seu trabalho o (a) afasta de Deus?